Saiba a verdadeira história de resistência do Dia da Mulher

Data nasceu do direito ao voto, sufrágio e melhores condições de trabalho

Publicado em 08/03/2018
Ilustração de Rachel Jo

No Bar de Batom, o Dia Internacional da Mulher acontece diariamente. São dias de comemorar as conquistas, exaltar a beleza individual, celebrar as habilidades particulares, fazer reivindicações, lutar por novos direitos, honrar o espaço feminino e, por fim, relembrar histórias. Somente retomando fatos do passado é que se ganha força e consistência para continuar alcançando o verdadeiro progresso. 

Há exatamente 41 anos, o dia "8 de março" foi reconhecido oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional da Mulher. Porém, para se obter essa conquista, foi preciso sangue, suor, lágrimas, séculos de anulação e outros tantos de resistência por espaço e voz na sociedade.

O livro "As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres", da escritora Ana Isabel Álvarez González, relembra o artigo do jornal El Mundo, de 1996, com o título “Aquele 8 de março... que nunca existiu”. A matéria afirmava que "não existia nenhuma confirmação documentada do fato histórico que motivou o nascimento do Dia Internacional da Mulher, ao menos o que amplamente se acreditava ser a origem: um incêndio de uma fábrica têxtil em Nova York".

A história da origem da data, que se deu pela morte de 130 mulheres, assassinadas por seus patrões na fábrica de incêndio da Triangle Shirtwaist Company, em 1857, por conta de uma greve, é uma falácia. O mito foi se propagando por pessoas comuns, meios de comunicação e estudiosos. Até hoje, a maioria das pessoas tomam isso como verdade.

Fato é que realmente aconteceu um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist Company, matando trabalhadores imigrantes, em sua grande maioria mulheres. Contudo, o incidente ocorreu em 1911 e os proprietários foram inocentados. Mas esse não foi o impulso para a criação do Dia Internacional da Mulher. 

A "falsa" história faz com que a maioria perca a oportunidade de entender a verdadeira complexidade do caminho que foi tomado para que todas pudessem ter o direito básico: educação, ao voto, liberdade sexual, entre tantos outros. Apesar de que esse "pacote" em algumas partes do mundo, como no Oriente Médio, ainda seja restrito.

Na realidade o Dia Internacional da Mulher não nasceu de forma isolada. As peças começaram a ser colocas no tabuleiro no século XIX, na Europa e Estados Unidos, quando organizações femininas reivindicavam o direito ao voto e também protestavam por melhores condições de trabalho.

"A mulher e o socialismo" (1879) de August Bebel

augusto bebel

O Dia Internacional da Mulher ganhou espaço por meio de uma base ideológica das teorias socialistas da segunda metade do século XIX. Isso porque o movimento socialista dedicava "mais espaço em seus escritos e mais tempo em suas atividades políticas à chamada 'questão da mulher'".

A primeira obra que trata sobre a opressão das mulheres é de August Bebel (1840-1913), um dos principais líderes do partido social-democrata alemão e o primeiro teórico marxista que escreveu um livro sobre o tema. O surgimento da obra "A mulher e o socialismo" coincidiu com o momento de maior crescimento do movimento de mulheres socialistas em toda a Europa e, mais concretamente, na Alemanha. De fato, a obra teve um forte impacto entre as mulheres da classe operária daquele país. 

"A mulher e o trabalhador têm em comum o fato de serem oprimidos desde tempos imemoriais. Apesar das modificações que sofreu na forma, esta opressão se manteve invariável. Ao longo da história, tanto a mulher como o trabalhador, raras vezes tiveram consciência clara de sua servidão; menos ainda a primeira, que era colocada em nível mais baixo que o operário porque foi e ainda é considerada por este como um ser inferior. Uma escravidão que dura centenas de gerações termina convertendo-se em costume; a herança e a educação fazem com que pareçam “naturais” a ambas as partes. Deste modo, a mulher se acostumou a considerar tão normal esse estado de inferioridade, que é trabalhoso persuadi-la do quão indigna é sua posição atual, e de que deve aspirar a ser um membro na sociedade investido de direitos iguais aos do homem, seu igual em todos os sentidos", afirma Bebel em seu livro.

Clara Zetkin  

clara zetkin

Uma das mulheres que foram influenciadas pela obra de Bebel foi a intelectual Clara Zetkin (1857-1933), que estaria à frente do movimento de mulheres trabalhados alemãs. Entre tantas conquistas, ela reivindicou a celebração de um Dia Internacional da Mulher na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague em 1910. A medida foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo era honrar as lutas femininas e, assim, obter suporte para instituir o sufrágio universal em diversas nações. 

Enquanto isso, nos Estados Unidos, depois de muita oposição, aconteciam as primeiras comemorações do Woman’s Day, organizado pelo Partido Socialista Americano. No dia 28 de fevereiro de 1910, ficou estabelecido reservar o último domingo de cada mês de fevereiro para a reivindicação do direito ao sufrágio feminino. 

Uma conquista que vinha do movimento sufragista do país desde suas origens, em meados do século XIX, até a aprovação da Décima Nona Emenda à Constituição em 1920, que outorgava às mulheres dos Estados Unidos o direito ao sufrágio. Porém, a iniciativa foi cancelada em 1914 pelo próprio partido socialista, que passou a ser liderado por uma ala conservadora masculina.

Dia da mulher na Rússia

Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), eclodiram ainda mais protestos em todo o mundo. Mas foi em 8 de março de 1917 quando aproximadamente 90 mil operárias manifestaram-se contra o Czar Nicolau II, pelas más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra - em um protesto conhecido como "Pão e Paz". Esta data consagrou-se como Dia Internacional da Mulher, embora tenha sido oficializada apenas em 1921, e teve entre os seus protagonistas a intelectual e revolucionária Alexandra Kollontai (1872-1952). Ela acreditava "na nova mulher" e na humanização do homem.

Embora, parecesse uma revolução feminina, uma vez que um país de proporções continentais tenha tomado a frente da celebração, a data sofreria mais uma mudança em seu significado. Conquistas foram jogadas por terra com o andamento do governo de Stalin, que anteriormente defendia o papel produtivo da mulher. Mas, em prol do crescimento do país, passou a obrigar as mulheres a fazerem trabalhos pesados, proibiu a liberdade sexual, o aborto e o divórcio a fim de aumentar a natalidade, que ficou em baixa na década de 1930. 

"Em vista desses acontecimentos, não é de se estranhar o novo significado que ganhou o Dia Internacional da Mulher. Se a imagem da mulher-revolucionária, necessária em seu momento para o triunfo da revolução foi substituída pela da mãe-abnegada, requerida agora para aumentar os índices da natalidade, o 8 de março se converteu desde meados dos anos trinta no equivalente ao Dia das Mães", explica Ana Isabel Álvarez González em seu livro.

Novos horizontes

feminismo 1960 e 1970

As mulheres dos Estados Unidos e Europa precisaram lutar por mais 20 anos para que a data ganhasse a força simbólica necessária em todo o mundo. O Dia Internacional da Mulher foi reconhecido apenas depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) pela Organização das Nações Unidas (ONU). 

"Nos anos seguintes, o Dia Internacional da Mulher passou a ser uma ocasião para elogiar o trabalho realizado pelas mulheres durante a guerra e para reconhecer seu direito de participar da construção de um novo mundo em paz. Em 1946 e 1947, as estadunidenses felicitavam no 8 de março as cidadãs soviéticas na comemoração de 'seu' dia, em uma tentativa de fortalecer os laços de amizade e paz entre as mulheres dos países que derrotaram o fascismo", afirma Ana Isabel.

Com a  segunda onda do movimento feminista no final dos anos de 1960, a ocasião se tornou uma oportunidade para reafirmar em escala global a nova consciência, encoberta pela marca comunista. E, finalmente, 1975 foi considerado o Ano Internacional da Mulher pela Nações Unidas. Dois anos depois, o órgão reconheceu o "8 de março" como o Dia Internacional da Mulher

Por Mayhara Nogueira

Foto: Ilustração de Rachel Jo