Priscila Barbosa: quando a força e a delicadeza se encontram

Em entrevista, ilustradora fala do universo feminino e suas questões profundas

Publicado em 17/04/2018
ilustração Priscila Barbosa

A complexidade individual feminina nunca foi tão investigada como nos últimos anos. Os corpos, os desejos, os anseios, as lutas e também as vitórias de uma mulher vêm sendo representados a partir do olhar de cineastas, escritoras, pintoras, compositoras e também ilustradoras. Essas artistas tecem fragmentos a partir de uma visão particular, capaz de aprofundar ainda mais as discussões sobre a diversidade. Um dos lugares mais prolíferos e inspiradores para observar essas revoluções em "tempo real" é o Instagram. Em meio a inúmeras postagens sobre feminismo e empoderamento, alguns nomes se destacam, como o de Priscila Barbosa (28). 

Ilustradora, diretora de arte e membro do Coletivo Jupiter, Priscila utiliza o contraste de cores e expressões etéreas para retratar figuras femininas resistentes. Por meio de imagens que mostram as sutilezas dos corpos e atividades triviais femininas, a artista discute pautas como a gordofobia, sororidade, novas masculinidades, empoderamento sexual, entre outros assuntos. Em entrevista ao Bar de Batom, Priscila, que já fez ilustrações para a revista Claudia e atualmente ilustra matérias dos sites Viva Bem e Universia, do UOL, reflete sobre os caminhos que a levaram a construir o seu próprio estilo, que, segundo ela, ainda está em movimento.

O relacionamento com a ilustração 

priscila barbosa

A maioria das pessoas tem um dom, que se manifesta desde cedo, mas é praticamente ignorado com o passar do tempo, seja por insegurança ou incertezas. Priscila passou pela mesma situação. "Sempre gostei muito de desenhar modelo nu. Anatomia e corpos femininos sempre foram do meu interesse", conta. "Mas quando entrei na faculdade de artes visuais, esse não era o foco do curso. Além disso, eu também achava que não era boa o bastante para continuar. Então acabei me distanciando da ilustração", lembra. 

Passados quase dez anos desde o ingresso na faculdade, ela começou a repensar as habilidades. A mudança aconteceu após começar a trabalhar em um estúdio de design e encontrar artistas dedicados à ilustração. "Ao poucos, um incentiva o outro. Foi um trabalho em grupo mesmo, então comecei a voltar aos poucos. Desenhava timidamente, algo perto do realismo, o que eu achava ruim. Me questionava: 'como posso desconstruir as imagens?'. Via várias referências, achava tudo lindo, mas não me representava", explica. "Então, em 2017 percebi que poderia misturar o realismo com uma ideia mais etérea. Aí tudo começou mesmo no começo deste ano."

Ilustração como extensão do seu próprio autoconhecimento

Para Priscila, as ilustrações refletem os seus próprios questionamentos: como ela se relaciona consigo e como se enxerga mulher. "Eu não me sinto representada nas imagens que eu vejo. Então ilustrar mulheres tem a ver com a vontade de ser representada nas imagens. De ver corpos que também são parecidos com o meu. Dessa necessidade, comecei a expandir e desenhar outros corpos que não são parecidos com o meu", reflete. 

Além disso, a ilustração também acabou se tornando uma ferramenta para que a artista percebesse como ela se relacionava com outras mulheres. "Eu não tenho uma relação muito próxima com a minha família, de sair, contar coisas e trocar figurinhas. Muito menos com as mulheres da minha família. A minha mãe faleceu quando eu tinha 18 anos", explica. "Muitos assuntos que eu deixei de abordar com a minha mãe, apesar de ter uma boa abertura, eu tento conversar com outras mulheres. Sempre fui muito fechada, não gostava de me expor muito, mas hoje eu questiono essa exposição", explica. 

Segundo Priscila, essa vulnerabilidade é uma forma de criar um diálogo interessante com as pessoas. "Isso tudo volta para nós, com outros questionamentos, outras perguntas, questões que não eram suas, mas no final das contas são de todas nós", explica.

A mulher com mastectomia

Uma das figuras que mais representa o seu diálogo com o feminino, bem como a busca pela leveza mesmo em em assuntos polêmicos, é a mulher com mastectomia. A artista explica que foi a imagem mais difícil que ela fez, uma vez que a sua mãe passou pela mesma cirurgia. A intenção da ilustração é desmistificar o câncer de mama como parte da identidade de uma mulher que sofreu da doença. 

"Eu costumava lembrar dessa situação, a qual passei com a minha mãe, com um peso tão grande. Hoje eu penso que não é necessário carregar esse peso. As mulheres não precisam ser olhadas com esse peso: 'mulher que fez mastectomia' ou 'a mulher que venceu o câncer'. O câncer não faz parte do que ela é. Então eu fiz questão de produzir uma ilustração de uma figura feminina tranquila, com um livro do lado, como qualquer outra. Essa leveza tinha que estar presente", explica

Gordofobia e mulheres trans 

As mulheres retratadas por Priscila são inspiradas em pessoas reais e assuntos que as incomodam, a exemplo da aparência. A maioria de suas imagens mostram mulheres com curvas, revelando celulites, estrias e tatuagens. "Essa questão da gordofobia não me aflige, mas incomoda muitas pessoas ao meu redor. Ouvir o que elas têm a dizer foi muito impactante para mim", explica. "A representação de mulheres gordas ainda é uma coisa que eu tenho que explorar muito, porque eu acho que elas não se sentem representadas como deveriam ser. Então é um assunto que eu penso muito como colocar", explica. 

Apesar de suas imagens serem inspirações para muitas mulheres, ela precisa lidar com cobranças. É o caso da representatividade de mulheres trans. "Em nenhuma ilustração eu disse que não são mulheres trans", afirma. "Então eu percebo que as pessoas ainda querem diferenciar uma da outra. Não tenho o intuito em fazer essa diferenciação, porque essa diferença não existe para mim."

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O oportunismo do mercado

O número de ilustradores que abordam o feminismo está crescendo proporcionalmente ao ritmo de empresas que desejam absorver o assunto. Contudo, Priscila é cautelosa. "Eu gosto de saber quem é o artista e entender as suas motivações, porque é muito fácil ver as pessoas surfando em nichos que estão bobando. Mas se o assunto não representa o ilustrador, acho um pouco vazio", explica.

Para a artista, o desafio é fugir de algumas propostas que usam o feminismo para autopromoção, principalmente quando as corporações estão envolvidas. "As empresas entram em contato, no entanto avisam que não têm cachê, porque o trabalho é destinado 'para as mulheres' e 'para o empoderamento'. Mas como aceitar essa proposta se o que defendemos é justamente o contrário? O feminismo não é um trabalho de caridade. Temos que ser remuneradas e valorizadas. Esse feminismo capitalista não me representa."

Futuras ilustrações

Após fazer uma extensão sobre "novas masculinidades" na PUC, agora Priscila vai se dedicar ao estudo de "mulheres latino-americanas". "Eu gostaria de fazer algumas ilustrações sobre o assunto, mas percebi que ainda não tinha uma visão que valesse a pena ser compartilhada. É fácil cair no estereótipo: pele dourada e corpo sensual. Porém, a intenção é desconstruir essas imagens."

De um modo geral, Priscila afirma que o seu trabalho está só no começo e existe uma infinidade de mulheres para serem retratadas. Contudo, o seu processo é interno, equilibrando a técnica - atualmente ela se dedica à ilustração digital - com o enriquecimento intelectual. "Para eu desenhar uma imagem, é preciso que ela esteja formada na minha cabeça e eu, pronta emocionalmente, aí eu começo. Eu tenho uma lista de assuntos que desejo abordar. Porém não existe uma ordem, pois geralmente não acontece porque as pessoas ou o feed do Instagram pedem."

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação