Opinião|Denúncias contribuem para a igualdade de gênero?

Mulheres estão impulsionando força gigantesca ao não se calar

Publicado em 29/11/2017
Lupita Nyong’o e o produtor Harvey Weinstein

Uma avalanche de denúncias de abuso sexual dominou as mídias neste ano de 2017. No Brasil, a bomba caiu nos bastidores da emissora Globo, quando a figurinista Susllem Meneguzzi denunciou um dos mais conhecidos atores do país, José Mayer. 

Em carta aberta ao jornal Folha de S. Paulo, ela contou que, entre tantos abusos, Mayer chegou a colocar a mão em sua genitália. O fato criou uma onda de revolta não só entre as profissionais da emissora, como também em todo o Brasil, impulsionando a campanha Mexeu com uma, mexeu com todas.

Meses depois, outra bomba, agora com proporções nucleares, recaiu em Hollywood. O produtor Harvey Weinstein, que já foi considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, foi acusado de assédio e abuso por mulheres como Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne, Angelina Jolie e Lupita Nyong’o

Depois que o grande poderoso de Hollywood sucumbiu, mais figurões da televisão, do cinema e da moda foram desmascarados: Louis CK, Kevin Spacey, Ed Westwick, Steven Segal, Brett Ratner, Ben Affleck, Terry Richardson, Andrew Kreisberg e Dustin Hoffman são alguns dos nomes. Parte deles foram afastados e demitidos das empresas em que trabalhavam.

As acusações também encorajaram mulheres não famosas a relatar experiências parecidas. A atriz Alyssa Milano, influenciada pela ativista Tarana Burke, incentivou vítimas de abusos sexuais ao longo da vida a dar seu testemunho no Twitter usando a hashtag Me Too.

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Abusos, assédios e violências sexuais representam um profundo trauma na vida de muitas mulheres, por isso expor lembranças dolorosas é uma tarefa extremamente difícil. Mas é possível perceber que, no meio do furacão, ações e reações estão se tornando cada vez mais rápidas, criando uma dinâmica na qual mulheres se contagiam, se fortalecem e se encorajam a abrir cicatrizes a fim de curar tanto as suas próprias feridas quanto as de outras mulheres. 

O que estamos vendo hoje é só o começo de uma verdadeira mudança de comportamento. Pois as denúncias ainda devem continuar e não serão poucas. Porém, são peças fundamentais na luta por igualdade de gênero.

Nesta semana, a França iniciou uma verdadeira "guerra cultural" contra sexismo e violência sexual. O presidente Emmanuel Macron declarou que vai propor o aumento do orçamento para combater as desigualdades, uma nova abordagem na educação infantil e um reforço repressivo contra o assédio e o abuso sexual em seu país.

Em nível global, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em pronunciamento em Nova Iorque para o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher (25), defendeu a igualdade de gênero e o empoderamento feminino como soluções para as violações dos direitos das mulheres. Para ele, a violência de gênero “afeta famílias, comunidades e sociedades inteiras”.

Por isso, quando a vítima não se cala, não intimida só o potencial agressor, mas gera uma força gigantesca e contagiosa, que impulsiona uma verdadeira transformação em leis e medidas que impactam e mudam toda a sociedade.  

Por Mayhara Nogueira