Opinião | Doc: Mulheres que mataram para sobreviver

Com histórias reais, documentário 'Legítima Defesa' faz recorte da violência

Publicado em 13/12/2017
Imagem de Úrsula chorando no documentário Legítima Defesa

A história é sempre a mesma. O casal se conhece, se apaixona e meses depois começam as crises de ciúmes excessivas, as brigas e um ciclo vicioso que evolui para violência, agressão moral e terror psicológico. Uma tragédia anunciada que acaba, na grande maioria das vezes, com a morte da mulher. 

E os números comprovam e crescem: entre 2003 e 2013, foi registrado um salto de 21% de assassinatos de mulheres em relação às décadas anteriores. Um aumento significativo mesmo com a implantação de mecanismos para coibir a violência contra a mulher, como a Lei da Maria da Penha, que em 2006 passou a classificar a violência doméstica e familiar como crime. Já em 2016 um estudo mostrou que uma mulher foi morta a cada duas horas no Brasil.

Mas o que acontece quando a companheira decide reagir e tomar um atitude extrema? O documentário Legítima Defesa, dirigido por Susanna Lira, aborda o problema da violência doméstica sob o ponto de vista de mulheres reais que sobreviveram: Úrsula Francisco e Daiane Cristina. No final de um ciclo de violência, por meio de um ato desesperado, elas reagiram e mataram os próprios companheiros. 

O terceiro braço do filme se baseia em um júri simulado, relatando um processo real, que contribui com a narrativa do documentário. Maria, uma personagem fictícia, é julgada por matar, a marretadas, o companheiro que dormia após estuprá-la. Ela conviveu durante cinco anos com episódios de violência.

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São casos bastante raros: foram 40 crimes ocorridos nos últimos 15 anos nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, segundo a produção do filme. A maioria das mulheres, quando há provas contundentes de uma legítima defesa, é absolvida sumariamente, ou seja, o juiz não aceita a denúncia e ela não vai ao Tribunal do Júri. Como foi o caso de Úrsula.

No documentário, ela reconta os seus 20 anos de casada com um ex-sargento da polícia. O que mais impressiona é como Úrsula distingue o homem que ela se casou daquele que ela matou. Ela lembra com carinho do marido no início do relacionamento, quando ele a presenteou com um piano ao invés de um carro, a pedido dela.

Contudo, com o tempo, a cumplicidade se tornou uma rotina de brigas, violência e ameaças de morte constantes. "Ele dizia: 'a Lei Maria da Penha não funciona para mim, não, se você me denunciar te dou um tiro, coloco em um saco e jogo dentro de um rio'", lembra Úrsula no filme.

Além dela, o marido ameaçava o filho e dizia que iria se matar em seguida. Com o tempo, as intimidações passaram a não ser mais segredo e até os familiares de Úrsula sabiam. E por fim ele tentou concretizá-las. "Aquele dia eu sabia que ia sair um caixão dali, só não sabia qual”.  

Embora as histórias e a atitude dessas mulheres se revelem chocantes, fica bastante claro para o espectador que o documentário não tem o objetivo de defender a violência, fazer apologia ou incentivar atitudes extremas. O filme dá voz a uma problemática e à cultura da violência doméstica. Como Daiane diz no filme: “todo mundo me disse que quando soube que tinha acontecido uma desgraça acharam que a vítima tinha sido eu". 

Legítima Defesa é um recorte social que também aponta que a morte dos companheiros não coloca fim ao sofrimento, e que tampouco a absolvição importa. São mulheres que passaram anos de angústia física e psicológica, praticaram um homicídio para sobreviver e, consequentemente, correram o risco de serem presas. E ainda, depois de tudo isso, terão que conviver com a culpa, a dor e o julgamento social enquanto estiverem vivas.

"As pessoas me perguntam se eu me arrependi. Eu digo que eu não posso dizer que me arrependi de uma coisa que eu não queria fazer. Eu não queria fazer aquilo. Mas foi necessário. A dor, eu sempre falo para o meu filho ou para alguém que me pergunta, só vai passar depois que eu morrer", afirma Úrsula.

O documentário Legítima Defesa foi ganhador do prêmio Melhor Longa-Metragem no Festival del Cine Mujeres en Foco por la Equidad de Género, em Buenos Aires, na Argentina. Neste sábado (16), o doc será transmitido no Cine Brasil TV (Canal 157 da SKY),  às 22h. 

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação/Legítima Defesa