A incrível geração de mulheres que preferem ficar solteiras

Anitta, filósofa do século XIX e candidata à presidência da Moldávia

Publicado em 18/11/2016
A incrível geração de mulheres que preferem ficar solteiras

Esse não é um artigo contra o casamento. Até porque seria hipócrita, já que eu mesma decidi me casar. Esse é um texto sobre permanecer solteira - sozinha ou não. Os motivos podem ser diversos: porque não encontrou alguém que tenha os pensamentos compatíveis aos seus, porque prefere se dedicar aos seus próprios interesses ou por pura filosofia de vida.

Assim como aconteceu com Helene Stöcker, a primeira alemã a se doutorar em Filosofia e que decidiu não se casar por convicção. Ela nasceu no dia 13 de novembro de 1869, se tornou feminista e ajudou a fundar várias organizações, dentre as quais a Associação para o Direito de Voto da Mulher, a União para a Proteção da Maternidade e a Reforma da Sexualidade. Apesar de ter sido parceira do advogado Bruno Springer por décadas, Helene preferiu permanecer solteira. Segunda ela, a base legítima da relação sexual não era o casamento, e sim o amor.

Quase dois séculos depois - incluindo conquistas femininas inimagináveis - travar uma discussão sobre a escolha do estado civil de uma mulher dá uma sensação anacronismo, não dá? Não quando você se depara com uma notícia de que uma candidata à presidência de um país sofre críticas sexistas por - pasmem - ser solteira.

Isso aconteceu com Maia Sandu, que tenta assumir a presidência da Moldávia, um pequeno país entre a Ucrânia e a Romênia. Aos 44 anos, a economista e candidata do partido liberal Acțiune și Solidaritate, que defende uma “Moldávia europeia”, está perplexa com a repercussão do seu estado civil. “Nunca pensei que ser uma mulher solteira era um motivo de vergonha. Se calhar, só o fato de eu ser uma mulher já é um pecado", disse em entrevista em um canal de televisão local.

No Brasil, dados do IBGE (2016) apontaram que as mulheres estão se casando cada vez mais tarde: aos 30 anos. No entanto, o fato dos jovens preferirem trocar as alianças mais tarde não muda a realidade da indústria do casamento, que cresce todos os anos. Por isso, em terra que ainda abriga muitas mulheres comprometidas, aquela que prefere ser solteira a "subordinada" é rainha, e recebe o título de "empoderada".

A cantora Anitta, que apesar de não ter chego na fatídica (pelo menos segundo a estatística) idade de se casar, acabou, sem querer querendo, se tornando a voz de uma geração de mulheres que preferem se manter desimpedidas. Em um recente show, no festival Villa Mix, no Rio, ela mandou um recado incisivo para quem a destrata tanto por ser funkeira quanto por ser mulher.

"Uma vez eu peguei um cara que falou assim para mim: 'Se tu fosse minha mulher, a primeira coisa que ia mudar é esse rebolado aí na frente dos outros'. Aí eu falei: 'entendi, para me pegar é legal, mas para ser tua mulher não dá'. Hipocrisia é que não dá, sabe por quê? Eu prefiro ficar sozinha do que ser subordinada."

Por mais popularescas e midiáticas que as palavras da cantora possam soar, ignorar também seria deslegitimar uma nova camada social de mulheres que começa a se confrontar com aquele famoso ditado: “melhor sozinha do que mal acompanhada”.

Assim como Anitta, a maioria das mulheres brasileiras é incentivada a estudar, trabalhar, ser independente, conquistar o mundo. Mas encaram um conflito existencial na hora de escolher um parceiro. Até quando ainda será preciso ter Anittas e Maias para vociferar, a plenos pulmões, o óbvio?

Por Mayhara Nogueira