Opinião | A cultura do assédio escondida no caso José Mayer

Avalanche de opiniões discrepantes sobre o assunto revelam a raiz do problema

Publicado em 07/04/2017
Opinião | A cultura do assédio escondida no caso José Mayer

No passado, não tão longínquo, quanto tempo levava para uma mulher admitir algum tipo de assédio no trabalho? Anos, décadas ou uma vida inteira. E quanto tempo levava para o agressor ser punido? Anos, décadas ou talvez nunca ocorresse tal "punição". Na última semana, assistimos, por capítulos, um ciclo de denúncia com começo, desfecho e um fim provisório. Uma série de acontecimentos que sucederam em surpreendentes seis dias.

Tão rápido, mas que, infelizmente, não apagam os oito meses de abusos sofridos por Susllem Tonani (28), vítima de sucessivas investidas do ator José Mayer (67). Susllem, que é figurinista da Globo, reportou o ocorrido na coluna #AGORAÉQUESÃOELAS da Folha de S.Paulo, no dia 31 de março. Mas, precisou lidar com uma avalanche de críticas e defesas furadas de Mayer, antes do mesmo sucumbir a pressão e assumir a culpa no dia 5 de abril.

Fiquei um tempo observando o caso transcorrer. Como mulher, o espírito de indignação transbordava. Como jornalista, que não tem acesso às fontes, o dever de conhecer os dois lados da história acionou um comunicado de alerta. E, por fim, como ser humano, o receio de não provocar um linchamento virtual ponderou algumas atitudes.

Mas, enquanto os acontecimentos se desdobravam, algo acontecia nos bastidores. Um holofote gigantesco foi direcionado para um poço enlameado. Felizmente, não tão profundo, a ponto de esconder a origem do problema. Assim como eu, você também assistiu à avalanche de opiniões assustadoramente discrepantes de atores já estabelecidos, celebridades e jornalistas adorados por milhões de pessoas.

A conclusão que se tira, observando o comportamento de boa parte da ala masculina da classe artística, é que tudo não passou de "uma brincadeira que talvez as pessoas estejam acostumadas, porque sempre foi assim". Palavras de Caio Blat em defesa de Mayer, antes do ator assumir a culpa.

Sempre foi assim, parece estar enraizado, não só na Globo. Felizmente, o tom mudou e passará a atropelar pessoas com esse mesmo pensamento, Caio. Não existe mais espaço para esse discurso acomodado, de quem parece ter assistido coisa muito pior, mas preferiu ficar calado. Sinto muito e sou solidária à Susllem, e a tantas outras que ainda estão caladas por causa desse "sempre foi assim" ou "é apenas uma brincadeira".

Passam a ser desmascaradas celebridades, chefes, homens poderosos que, assim como José Mayer, em pleno 2017, ainda colocam a culpa na educação. Nas palavras do ator: "fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas, podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas". Hoje, neste caso, seis dias - tempo que durou o ciclo de acusações da vítima e a derrocada do agressor - assemelha-se à velocidade da luz, diante de tantos outros casos que tivemos conhecimento.

Porém, a velocidade deve ser contínua e progressiva, de maneira que os pedidos de desculpas, perante à sociedade, sejam substituídos por um verdadeiro acerto de contas com a justiça. O que José Mayer fez foi um ato criminoso e as suas justificativas, e de tantos outros que virão por aí, não podem mais ser amenizadas.

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação