Opinião | Assédio é necessário para liberdade sexual?

Precisamos entender finalmente que o sim tem o mesmo peso que o não

Publicado em 12/01/2018
Placa escrito "ni solo, ni putas, solo mujeres"

Em entrevista com a ilustradora Carol Rossetti, destaque na luta contra o machismo pela arte, ela apontou que se hoje a reação conservadora está sendo forte em vários processos de mudança, como os defendidos pelo feminismo, é porque a ação foi forte também para que eles fossem perpetuados. 

Nada parece fazer mais sentido para reagir à carta aberta assinada por personalidades francesas no Le Monde na última terça-feira (9), em crítica à difusão de denúncias contra homens poderosos especialmente no cinema, que acabou resultando em demissões e perdas de trabalho.

O texto foi divulgado apenas dois dias depois que o mundo assistiu a um Globo de Ouro bem menos óbvio do que nos anos anteriores, protagonizado por mulheres vestindo preto em forma de protesto, adentrando o red carpet com ativistas e assumindo o microfone da cerimônia com discursos focados na luta pela igualdade de gênero.

Claro que a cerimônia também não foi perfeita, a indicação de somente homens na categoria de melhor direção revelou como a indústria cinematográfica permanece machista, reflexo do baixo aumento de mulheres em posições de destaque atrás das câmeras

Contudo, como bem lembrou Gal Gadot em discurso no Critics' Choice Awards, o crescimento feminino ainda é baixo, mas é real. E a luta continua. Continua e começa justamente lá de trás: contra a cultura do machismo, que não tem nem que começar.

Ao contrário das autoras da carta, líderes franceses parecem entender ou, pelo menos, estar atentos a isso. No ano passado, a secretária de Estado para a Igualdade entre homens e mulheres, Marlène Schiappa, anunciou um projeto de lei para tornar crime o assédio nas ruas, e vem convidando toda a sociedade a debater o tema em encontros públicos. 

Semanas depois, o presidente Emmanuel Macron revelou o lançamento de uma "batalha cultural" - ele usou justamente essas palavras - contra o machismo, afirmando que medidas como uma nova abordagem na educação desde o berçário e a regulamentação ao acesso a videogames com conteúdo misógino e pornografia irão virar lei no país.

As propostas visam justamente a prevenção de crimes sexuais, e não a punição depois que eles ocorrem. Na carta ao Le Monde, as autoras criticaram as demissões dos acusados de assédio em Hollywood. Ao mesmo tempo, se posicionaram contra ao que chamaram de "puritanismo" que teria se instaurado na sociedade, o que seria uma afronta à liberdade sexual. Ou seja, nem punição e nem prevenção fariam sentido para mudar essa realidade.

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Marlène Schiappa considerou o conteúdo da carta "perigoso". De fato, a inserção em uma sociedade machista não nos faz enxergar facilmente a diferença - que, depois de percebida, se faz enorme - entre elogio e assédio. Ao contrário do que dizem as 100 francesas que assinaram o texto, tocar um joelho ou tentar beijar uma mulher sem o consentimento dela não são atitudes levianas - é assédio.

Cada vez mais campanhas tentam mostrar isso, como a Chega de Fiu Fiu, lançada pela ONG Think Olga. Receber um assovio na rua é elogio? Desde pequenas aprendemos que sim, e mais: que temos que nos sentir lisonjeadas por um homem nos tratar assim. Mas se isso, na verdade, nos gerar um desconforto, onde é que está a nossa liberdade?

Liberdade sexual não consiste em mulheres livres para serem importunadas - como consta no título da carta - ou mesmo usadas pelos homens em locais públicos - vide Diego Novais -, mas em uma liberdade de estar à vontade em manifestar e viver o seu próprio desejo. Não só do sim, como do não. 

Aí é que está a luta da #MeToo, e nossa de cada dia, em provar que somos verdadeiramente livres quando somos respeitadas. E, mais do que um construtivismo das novas gerações, esse movimento consiste na desconstrução das anteriores, para que elas compreendam diferenças como essas. Pode valer a pena as autoras da carta comparecerem a um dos encontros abertos de Schiappa para começar a entender isso - e fortalecer nosso movimento.

Por Luciana Faria

Foto: Reprodução/Instagram