Mulheres crescem no meio cervejeiro e empoderam o mercado

Coletivos femininos trocam conhecimento e produzem cervejas artesanais

Publicado em 19/07/2017
Mulheres crescem no meio cervejeiro e empoderam o mercado

Imagens de mulheres servindo garrafas de cerveja trajadas em biquínis cavados, aos poucos, vêm perdendo seu espaço na publicidade. Assim como a designer Carol Rossetti refez anúncios da Skol colocando a mulher como consumidora (leia entrevista com ela aqui) - posição que nunca foi nossa por décadas nessas propagandas - muitas mulheres estão ocupando um novo espaço nesse universo: como produtoras.

Um exemplo é a Cervejaria Dádiva, de São Paulo, que tem como sócia-fundadora Luiza Tolosa. Lá foi produzido o primeiro rótulo do Coletivo ELA, grupo formado apenas por mulheres do meio cervejeiro. O lançamento foi uma American Barley Wine, que está completando um ano de fabricação.

Outro destaque é a American Pale Ale Single Hop Amarillo, do Coletivo Mulheres Cervejeiras, de Curitiba. Lançada há algumas semanas, a cerveja também estreou o grupo na linha de produção da bebida.

E quem pensa que o que essas mulheres querem é "apenas" entrar no mercado está enganado. O que elas desejam é realmente ocupar esse espaço, desmistificando preconceitos e tabus. Elas se reúnem não só para produzir cerveja artesanal, mas para trocar conhecimento sobre a bebida e promover reflexões para reverter a posição da mulher nesse meio.

ELA criou embalagem contra o machismo

Mulheres crescem no meio cervejeiro e empoderam o mercado

Empoderar, libertar e agir - verbos que formam a sigla do ELA - é justamente o objetivo que as integrantes buscam com o coletivo, que tem força especialmente nas redes sociais. São cerca de 100 membros que compõem hoje o grupo do ELA no Facebook - mais que o dobro do que quando começou, há pouco mais de um ano - criado para discutir o machismo no meio cervejeiro.

As integrantes também participam de eventos, encontros e divulgam seus trabalhos na página ELA no Facebook, que acumula cerca de 4.500 curtidas. Mas um dos pontos mais altos do grupo foi o lançamento do primeiro rótulo.

Amarga, encorpada, potente, marcante e com 10,5% de teor alcóolico. Esta é a definição da  American Barley Wine do ELA, que teve em toda linha de produção apenas mulheres trabalhando. 

A bebida de mulher, doce, levinha, feita por cervejeiras que fazem dos namorados sortudos pelo seu trabalho ficou apenas no pacote de papel pardo da embalagem - que propositalmente envolvia a bebida para ser rasgado pelas consumidoras.

Mulheres crescem no meio cervejeiro e empoderam o mercado

"Acho que quando mostramos pelo nosso exemplo que podemos trabalhar em qualquer área, em um ambiente tão masculino de uma cerveja - a mulher pode vender, ser dona de uma fábrica, uma sommelier - tudo isso acaba servindo como exemplo de que não existem profissões para homens e mulheres", declara Luiza.

E sucesso também não tem nada a ver com gênero: foram menos de três meses para que toda a produção fosse vendida, e os lucros foram revertidos para uma fundação de apoio à mulher. 

União é a marca dos coletivos

Mulheres crescem no meio cervejeiro e empoderam o mercado

"Aqui no coletivo nós temos um lema: se você acha que cerveja e mulher não combinam, você não entende nem de uma coisa e nem de outra", brinca a digital influencer Daiane Santos, do Mulheres Cervejeiras.

O bom humor não fica de fora dos encontros delas, afinal, estamos falando de um produto símbolo de confraternizações. E o que esses grupos liderados por mulheres têm como força é justamente a união de quem gosta de cerveja artesanal. 

"Cerveja é uma celebração. Não estamos aqui para distinguir, mas para nos unir e lutar", afirma Daiane. 

A união marcou, inclusive, o lançamento do primeiro rótulo do coletivo. A produção aconteceu na Cervejaria República de Curitiba, entidade que recebeu e abraçou a proposta do produto, e a receita foi de uma cervejeira de Uberlândia, em Minas Gerais. 

"Foram meses de muita expectativa. Produzimos 500 litros, e em menos de uma semana já não tinha mais nada", conta Daiane. "Foi uma oportunidade de dar voz às mulheres".

Conhecimento sobre cerveja busca empoderamento

Mas além da união, a arma que todas essas mulheres encontraram para quebrar tabus e ocupar seu espaço foi o conhecimento.

"Criamos uma plataforma digital que chamamos de confraria online, feita para disponibilizar conteúdo para quem está longe. Hoje temos gente do Recife, de Minas Gerais - é o nosso 'Netflix cervejeiro', com material sobre produção, degustação e palestras com pessoas influentes do meio", conta Daiane. 

Hoje são 50 membros na confraria e cerca de 10.500 pessoas que curtem a página do coletivo no Facebook. Lá, elas divulgam os eventos dos quais participam e promovem - entre degustações de rótulos e ações educacionais - e apresentam as integrantes da confraria, que também compartilham informações sobre o mercado cervejeiro em suas regiões.

A prova de que o conhecimento empodera mulheres e atinge diretamente pensamentos machistas também foi sentida pelo ELA em suas discussões nas redes sociais.

"Um professor falou que, depois de ler uma reflexão nossa, percebeu que um slide que ele iria apresentar em um curso de cerveja era sexista e machista, e tirou da apresentação", conta Luiza. 

Se ainda temos muito o que lutar, as cervejeiras concordam que sim. Mas estamos no caminho. "No geral, acho que quanto mais falados e discutidos esses assuntos mais consciência eles trazem", afirma a proprietária da Dádiva. "Contra o preconceito e o machismo, o conhecimento é a melhor arma", conclui Daiane. 

Por Luciana Faria

Fotos: Divulgação/Instagram/Facebook