Mariana Kuroyama fala sobre o resgate do feminino em tatuagens

Entrevistamos a artista que faz do ato de tatuar um verdadeiro ritual

Publicado em 06/03/2018
Tatuadora Mariana Kuroyama

"Existe um ponto sobre a natureza que é mágico. É quando você observa uma lagarta, que forma um casulo, da onde nasce uma borboleta. Para mim, isso é mágico e nos fala muito sobre Deus. Não do Deus de uma religião, mas de outra consciência. A 'tatuágica' é isso, vem de uma história, da qual a mulher sai diferente, transformada", explica a tatuadora Mariana Kuroyama.

Há mais de dez anos, Mariana se dedica à arte de produzir tatuagens Em entrevista exclusiva ao Bar de Batom, a artista justifica que, para ela, desenhos na pele não são produtos, mas, sim, parte de um ritual transformador, diretamente ligado às práticas ancestrais de povos tribais antigos - maoris, árabes e asiáticos -, à valorização da natureza e aos poderes femininos. 

"É uma cultura milenar, que eu acabei me apaixonando por sua forma ritualística e beleza. A tatuagem não é um produto. Cortar a pele de uma pessoa para colocar um desenho sempre foi uma coisa séria."

Para chegar a essa concepção, fortes experiências pessoais de conexão ao feminino fizeram parte da trajetória de Mariana e, nessa entrevista, ela conta quais foram e como os desenhos no corpo podem transformar outras mulheres também. Confira:

Mariana Kuroyama nasceu em Brasília, cresceu em Fortaleza e hoje trabalha em São Paulo. Formada em jornalismo, ela teve o seu primeiro contato com a tatuagem ainda na faculdade, quando esbarrou no assunto em uma das matérias do curso. "Na época, eu ainda não tinha nenhuma tatuagem", lembra a jovem, que desenha desde criança com nanquim e tem uma irmã formada em arte e também é tatuadora.. 

Em pouco tempo, a artista aprendeu a técnica e mergulhou na nova habilidade. Mudou-se então para São Paulo e transformou o seu destino: por meio de um grupo de estudo de amigas, passou a pesquisar as questões profundas do feminino baseadas em vivências. 

"Hoje já sou permeada por essa energia. A vida que eu levo tem um estudo diário sobre as questões femininas, como aceitar os sentimentos e compreender o 'sentir' como uma forma de comunicação." Mariana completa que essa nova realidade também foi despertada nela após a leitura de Mulheres que correm com os lobos, da escritora e analista junguiana Clarissa Pinkola Estés, que revela, por meio de histórias, a natureza instintiva feminina.

Experiências com tradições indígenas impulsionaram as tatuagens

Para completar as experiências transformadoras, há dez anos Mariana Kuroyama cultiva o hábito de beber  ayahuasca, uma bebida produzida a partir de duas plantas e utilizada durante rituais religiosos e indígenas.

"Transformou a minha vida, me fez despertar para a sabedoria oriunda da natureza", comenta. "Hoje, nós mulheres, permanecemos numa luta por libertação, não no sentido de impor ou dominar, mas de honrar o nosso espaço e existência, fatos que não ocorreram com as nossas ancestrais femininas. Essa prática [o ritual de tomar o chá de ayahuasca] me ajudou a fazer uma conexão com a sabedoria feminina que cuida, cura e cria, porém permanecia à sombra de um homem 'fazedor'. Não que ele não possa realizar, mas ele tem o espaço dele. Nós temos que honrar o nosso."

E foi ainda em contato direto com mulheres de outras partes do Brasil e do mundo que o trabalho de Mariana com as tatuagens ganhou mais força, camadas e personalidade. Convidada pela amiga Mayara Boaretto, estudante de obstetrícia na Universidade de São Paulo (USP), Mariana percorreu o Brasil, a Índia e o Nepal para conhecer a tradição das parteiras. Na época, Mayara produzia um documentário por meio de um projeto chamado Mulheres da terra, raízes do Brasil.

"Foi uma oportunidade linda. Tive contato com parteiras indígenas da tribo Pataxó, a Dona Juda da Bahia, Mãe Zezé em Aracaju", lembra a tatuadora, que considera a experiência como um divisor de águas na sua vida. "Na Índia e Nepal foram três meses percorrendo vilarejos e casas no deserto para encontrar diversas parteiras. Me marcou o fato de que as mulheres do Oriente são responsáveis pelas passagens da vida de uma pessoa, como o 'nascer' e o 'morrer'. O meu lado espiritual e de reconexão com a ancestralidade nasceu dessa experiência."

Confira o vídeo do Bar de Batom sobre mulheres tatuadoras

Com essa sensibilidade profunda e visão integrada da vida, Mariana Kuroyama se conecta com os seus clientes, que buscam tatuagens que valorizam a energia feminina, a natureza e os cosmos. Todos os desenhos são delicados e repletos de detalhes.

Os seu traços e arabescos emergem compondo figuras femininas que parecem estar sempre despertando de um sonho. As linhas dos desenhos, sempre acompanhadas de um toque místico, assemelham-se a raízes que brotam e percorrem a pele em curvas vigorosas, formando flores, plantas e figuras tribais. 

"O meu trabalho tem essa conexão, que nos faz lembrar que estamos aqui só de passagem. A natureza do nosso planeta e as estrelas do cosmos são uma coisa só. E a mulher, nisso tudo, é um portal para a vida", destaca a tatuadora. 

Ela ainda se dedica à técnica de tatuar diretamente na pele, sem estêncil, para resgatar as tradições milenares. E, antes de começar a desenhar, a artista tem o hábito de fazer uma oração para os seus guias e mentores espirituais.

"No Oriente a tatuagem tem uma conotação sagrada e hierárquica. Tatuagem é um ato de força conosco, para pontuar algo na nossa história. Por isso é uma prática pessoal, ligada ao nosso interior", aponta. "Não interessa o motivo pelo qual você está fazendo, se é para superar um problema, contar ou celebrar uma história, em nome da beleza. O meu papel é dar vida a esse sentimento, criando o desenho no momento presente com a pessoa."

Para comemorar a semana do Dia Internacional da Mulher, Mariana Kuroyama, que também faz trabalhos em aquarela, vai expor os seus quadros juntamente com um coletivo de artistas na exposição Libertação. O evento estará em cartaz a partir desta quinta-feira, dia 8 março, na SUB Galeria em São Paulo.

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação/Camilla Albano