Manuela D’Ávila e a face do machismo no Roda Vida

Pré-candidata foi alvo do conhecido "manterrupting"

Publicado em 27/06/2018
imagem de manuela sentada no meio dos convidados no programa Roda Viva

O Roda Viva, tradicional programa da TV Cultura, famoso por realizar entrevistas memoráveis, nunca esteve tão distante da própria identidade como nesta última segunda-feira (25). A aguardada entrevista com Manuela D'Ávila (PCdoB) foi um festival de bizarrices do começo ao fim. Ao invés de um debate construtivo, o espaço abrigou um campo de batalha, onde o principal objetivo era atacar e desestabilizar a pré-candidata com perguntas e interrupções totalmente sem sentido. 

No lugar de um troca de ideias, que deveria ser a principal manchete dos jornais no dia seguinte, o que virou notícia foi o festival de manterrupting que a pré-candidata viveu. Em inglês, essa palavra é uma junção de man (homem) com interrupting (interrupção) e é usada para explicitar situações em que um ou mais homens insistem em interromper a fala de uma ou mais mulheres, impedindo-as de concluir um pensamento. Ao todo, ela foi interrompida 62 vezes. Até então, nenhuma novidade para a maioria das mulheres que vivem essa realidade inúmeras vezes em um só dia. 

No entanto, a entrevista ficou bastante desconcertante no momento em que o entrevistador Frederico D’Ávila, assessor de Jair Bolsonaro, perguntou a Manuela se ela é a favor da castração química. Em resposta, a deputada tentou explicar que, para combater a cultura do estupro, era necessário recorrer à educação. No entanto, Frederico não deixou ela concluir, induzindo Manuela a respostas e temas desconexos. Além disso, ele também chegou a dizer que a cultura do estupro não existe. 

Mais que óbvio, o tratamento oferecido pelo programa à Manuela foi machista, misógino e de tom completamente agressivo, claramente com o intuito de calar a candidata - por fatos ideológicos ou não. O que é completamente estranho para o estilo de um programa educativo, bancado pelo Estado, e que deveria ser, no mínimo, um veículo imparcial. Entretanto, na era das redes sociais, o Roda Vida - que provou do sabor do sucesso com as entrevistas de Guilherme Boulos e Ciro Gomes - se mostrou um caçador de likes, mendigando atenção da mídia de maneira totalmente sórdida, gerando repulsa na grande parcela de seus espectadores. 

Em resposta a isso, um grupo de mulheres criou um abaixo-assinado pedindo a retratação da emissora. “Exigimos que a emissora cumpra seu papel de veículo público de comunicação dando espaço para que a pré-candidata exponha de fato suas propostas, marcando uma nova data para um debate real e qualificado”, afirma. O grupo também pede que a emissora faça uma retratação, uma vez que a reprodução do "desrespeito à mulher foi propagado em rede nacional pública em uma sociedade com altíssimos índices de violência contra a mulher”. 

Por Mayhara Nogueira

Foto: Reprodução/TV Cultura