Luisa Haddad resgata a reconexão com os alimentos

Projeto Pé de Feijão promove educação alimentar com a ajuda de hortas

Publicado em 04/05/2018
Luisa Haddad posando em meio a uma horta

"Alimenta-se bem e de forma saudável" é uma afirmação que se tornou um mantra, recitado por onde quer que a gente passe. E conforme a idade avança - alô, mulheres perto dos 30 - existe a tendência de nos depararmos com o conceito com ainda mais frequência. Até que em um certo momento, a falta de equilíbrio alimentar, combinada com a alta demanda do trabalho, passa a mandar lembranças para a saúde.

A situação se agrava quando olhamos para a agenda atribulada, e percebemos que temos poucos minutos de almoço e inúmeras opções rápidas disponíveis - combinação perfeita para repelir qualquer prática saudável. Então o que acontece no final das contas? Na maioria das vezes, rejeição ao assunto. Esse cenário é muito comum - provavelmente deve ter acontecido com você ou com uma amiga muito próxima. 

A bióloga Luisa Haddad conta que passou por algo semelhante. Aos 26 anos, trabalhando mais de 12 horas por dia e comendo mal, descobriu que o seu exame de sangue estava totalmente alterado - com o colesterol altíssimo e o risco de desenvolver novas doenças no futuro. A sua mãe havia falecido em decorrência do câncer, sem contar que também lutou contra o colesterol a vida inteira. Obstinada a cuidar melhor da saúde e compartilhar o que aprendeu com o assunto, Luisa, juntamente com os seus sócios, desenvolveu o projeto Pé de Feijão.

Em entrevista ao Bar de Batom, a empreendedora conta de que forma o projeto conseguiu, com o auxílio de hortas urbanas, resgatar uma reconexão das pessoas com os alimentos, tudo de maneira afetiva. Na próxima semana, Luisa estará no Festival Path, evento de inovação e criatividade, que acontece nos dias 19 e 20 de maio, em São Paulo, na mesa "Alimentando as Mudanças no Mundo"

Brilho no olhar

O nascimento do projeto Pé de Feijão foi praticamente uma resposta a uma sucessão de inquietações que Luisa teve ao longo de toda a sua vida. Muitas delas não tinham a ver com alimentação. Formada em biologia na Unesp de Botucatu e com MBA em sustentabilidade pela FGV, ela passou a sua carreira pós-universitária vivendo experiências diversas: trabalhou com pinguins em Ubatuba; com comunidade indígena em Roraima e com projetos no Pantanal. Mas algo estava errado.

"Fiquei no Pantanal por um ano e meio, me deparei com muitos projetos que eram questionáveis, mas recebiam financiamento. Enquanto isso, eu morava em uma casa com vários pesquisadores sérios, que faziam trabalhos igualmente importantes, mas que não recebiam dinheiro por isso. Então eu pensava na necessidade de estar na linha de frente da aprovação desses projetos."

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Depois da experiência no Pantanal, em 2011, ela decidiu voltar para São Paulo com o objetivo de trabalhar em uma empresa do ramo. Foi aí que o seu caminho se encontrou com o do empresário francês Cyrille Bellier (foto acima), de 43 anos, radicado no Brasil há 17. Ele viria a ser não só o seu chefe na Rever Consulting, empresa que justamente presta consultoria sobre sustentabilidade, mas também alguém que daria os primeiros passos no projeto Pé de Feijão.

A inciativa foi fruto do trabalho de conclusão de curso de Cyrille sobre sustentabilidade na ESPM. A proposta inicial era construir hortas nos topos dos prédios em São Paulo e a colheita servir para abastecer os  seus moradores

Saúde em risco

Parte do futuro de Luisa parecia estar em construção, só esperando que a ela encontrasse as pessoas certas. Em 2013, a bióloga fez um exame de sangue, que apontou colesterol e triglicerídeos altos, e princípio de inflamação no fígado - fruto de uma rotina de horas de trabalho e uma dieta regada a batata frita e bife à milanesa. "Meu pai é médico, e disse que não tinha muito o que fazer, porque a minha mãe lutou contra o colesterol alto a vida inteira e morreu de câncer aos 60 anos", lembra. "Se eu não fizesse alguma coisa, com certeza ia iria arrebentar com as minhas células."

Luisa buscou ajuda de uma nutricionista, mas só depois de várias tentativas encontrou Mariana Nogueira, que hoje, juntamente com Raquel Labonia,  é uma das colaboradoras do Pé de Feijão. "Ela foi super acolhedora, e iniciou o meu plano alimentar com o que eu gostava de comer - isso incluía as frituras que eu amava", lembra.

"Em contrapartida, ela me incentivou a adicionar um alimento novo toda semana, ir para a cozinha, preparar as minhas refeições e usar a alimentação para me reconectar, por exemplo,  com a minha mãe, por meio das receitas que ela fazia para mim", lembra. "A mudança de hábito não foi fácil, levou uns dois anos, porém todo esse acolhimento e compreensão me fez deixar, naturalmente, os hábitos ruins de lado."

Mudança de vida

Em 2015, Luisa já estava trabalhando da Rever Consulting há dois anos. Nesse momento, a mudança em eu seus hábitos alimentares começou a inspirá-la a abrir um negócio no ramo e pedir demissão do trabalho. No mesmo período, o projeto de horta na cobertura de Cyrille havia sido incubado pelo grupo Yunus Negócios Sociais. No entanto,  a iniciativa se encontrava em uma encruzilhada, uma vez que o espaço da cobertura do prédio não conseguiria atender toda a demanda de seus moradores.

Ao pedir demissão da empresa, Cyrrille convidou Luisa para fazer parte do negócio, que mudou de viés. A partir do ingresso de Luisa, a empresa abriu mão da produtividade para criar uma horta que tivesse a função de sala de aula, a fim de reconectar as pessoas aos alimentos. "Assim como aconteceu comigo, o meu desejo era despertar nas pessoas a vontade de relacionar com frutas e verduras. Eu não ensino nada que já não seja de conhecimento público, mas ofereço acolhimento, sem julgamento, para que elas conheçam esses alimentos."

Os primeiros grãos do pé de feijão

crianças pé de feijão

O local escolhido para criar a primeira horta e realizar as primeiras oficinas foi a Fábrica de Criatividade, ONG cultural localizada no Capão Redondo, na periferia sul de São Paulo. A verba inicial, R$ 20 mil, foi arrecadada por meio de um financiamento coletivo, em agosto de 2015. O investimento foi destinado ao desenvolvimento da horta e no ciclo de seis meses de “oficina de educação alimentar” - com instruções sobre o que comprar no supermercado até a maneira ideal para armazenar e higienizar os alimentos. 

O projeto não lucrou, mas virou um case de sucesso. E já nos primeiros meses, o Serasa Experian encomendou ao projeto um programa de saúde e bem-estar para os seus funcionários. A empresa queria uma mesma horta, mas no topo do prédio, no Alto da Boa Vista, em São Paulo. Novos pedidos começaram a surgir, e assim nasceram as relações com o SESC e a Amil. "O ano de 2016 serviu para consolidar o negócio - estávamos no céu. Conseguimos R$ 70 mil de faturamento naquele ano.  Dessa forma, reduzi a minha carga horária na Rever em 30% e passei a me dedicar 70% ao Pé de Feijão", conta.

Mas logo em janeiro de 2017 Luisa precisou se afastar. O irmão de 41 anos sofreu um grave AVC e passou mais de um mês internado. Até o final de março, a bióloga ficou fora do trabalho para ajudar na recuperação. Em abril, no entanto, retomou as atividades e passou a se dedicar 100% ao trabalho. "Nós tínhamos guardado dinheiro, e por isso conseguimos investir e acelerar o projeto. Digo isso porque várias matérias de empreendedorismo nos instigam a largar tudo, a fim de agarrar o sonho. Não é preciso largar nada, ninguém largou o trabalho para se dedicar ao projeto, todos trabalharam paralelamente. É preciso ter uma segurança financeira para não desistir do sonho pelo caminho", explica Luisa ao contar que a empresa fechou 2017 com o faturamento de R$ 213 mil. 

Alimentação de qualidade e com afeto

Informação com afeto ajudou Luisa a alimentar-se bem e hoje faz parte da filosofia do Pé de Feijão. A primeira medida é não julgar quem come ultraprocessados - bolachas, salgadinhos, embutidos e afins -, alimentos repletos de açúcar, sal e gorduras ruins, inimigos da saúde.

"Essa é uma combinação feita para viciar", explica. "Na oficina explicamos porque não devemos nos frustrar por não conseguir comer de forma saudável, já que todos esses alimentos são produzidos para você não conseguir. Por isso, não basta só ter força de vontade, é preciso aprender a viciar o paladar com outros sabores. Aprender a apreciar uma fruta não tão doce e uma torta não tão salgada", explica. 

Além disso, o projeto também é focado em oficinas de cozinha afetiva, nas quais a equipe ensina a criar e retomar as suas conexões com o alimento. "Ensinamos a importância de resgatar as receitas de família, manter as tradições e assim desenvolver novas receitas com os filhos. Eu mesma me reaproximei de um bolo de coco gelado, especialidade da minha mãe. O doce me traz lembranças vivas da nossa relação. Para que essa memória não se perca, pedi para a minha vizinha, que costumava cozinhar com minha mãe, para levar em uma de nossas oficinas para contar essa história."

A comida é só um gatilho para diversas mudanças positivas na vida de uma pessoa, gerando bem-estar para si, impacto para toda família e, consequentemente, ao meio ambiente. "Por exemplo, eu comento sobre a importância da atividade física na oficina, mas não é o nosso foco. Com o tempo, muitas pessoas começam a praticar naturalmente. O mesmo acontece com as relações de amizade que nascem no curso e se aprofundam no decorrer do tempo, com a saúde, consciência ambiental e geração de lixo", explica. 

Ao longo desses anos, o Pé de Feijão já trabalhou com diversas empresas: Bonduelle, Olam, Escola Educativa, Colégio Certus e Instituto da Criança + Amil. Atualmente o projeto atua com Serasa Experian, Barilla, Seguros Unimed e Colégio Madre Alix. Para quem deseja assistir as palestras gratuitas, Luisa tem hortas fixas no Sesc Campo Limpo e Sesc Parque Dom Pedro. No dia 19 de maio, a empreendedora estará no Festival Path, evento de inovação e criatividade, em São Paulo, na mesa "Alimentando as Mudanças no Mundo"

Por Mayhara Nogueira

Foto Divulgação/Pé de Feijão