Ketty Valencio cria livraria que valoriza protagonistas negras

Africanidades traz autoras, personagens e causas que provocam questionamentos

Publicado em 06/10/2017
Ketty Valencio proprietária da livraria Africanidades

Africanidades é o nome do e-commerce, criado por Ketty Valêncio, que comercializa livros que valorizam autoras, personagens e causas de mulheres negras. Além da loja online, a bibliotecária também trabalha de forma itinerante, apresentando nomes consagrados e fornecendo visibilidade às escritoras independentes. Sua intenção é provocar o resgate de identidade, história e, acima de tudo, a valorização do povo negro

A ideia da loja online nasceu na conclusão do curso de MBA na Fundação Getulio Vargas, onde ela se especializou em Produção Cultural. O seu trabalho final foi um plano de negócio de uma livraria. "Somos 53% da população no Brasil, com muitos leitores e também escritores. Eu vi que tinha possibilidade e demanda, assim comecei a colocar o projeto em prática", explica Ketty, que abriu a Africanidades em 2014. 

Porém, os seus questionamentos sobre a representatividade do povo negro e a vontade de compartilhar histórias desse movimento começaram anos antes, a partir da leitura dos primeiros livros do gênero. "Eu não tinha interesse em literatura até me deparar com alguns títulos. Passei a me reconhecer neles. Eram obras que não se mostravam tão distantes do meu universo. Essa literatura negra me valorizava e me via como ser humano", afirma. 

Ketty passou a perceber que a sua angustia era compartilhada. "Como toda adolescente, eu passei por crises existenciais, e percebia que havia pessoas pretas, parecidas comigo, com as mesmas angústias. Elas também notavam essa invisibilidade. Quando eu notei que essa literatura negra me fazia sentir confortável, que me acolhia, o meu desejo era que todo mundo tivesse a oportunidade de ler os mesmos livros."

A primeira protagonista negra que marcou a vida de Ketty

Carolina Maria de Jesus escreveu o livro O Quarto de Despejo

A bibliotecária se lembra da primeira personagem negra que a introduziu à literatura e também influenciou toda sua trajetória. Foi Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada. A protagonista descreve a dor, o sofrimento e a fome na comunidade do Canindé, em São Paulo. Seu texto é considerado um dos marcos da escrita feminina no Brasil, traduzido para mais de treze idiomas.

"Senti um soco no estômago quando a conheci, pois me fez lembrar de uma tia falecida. Eu a reconhecia na personagem e também em todas as catadoras de papel que eu encontrava na rua. Será que eu já cruzei com alguma Carolina na minha vida e não olhei para ela?", questiona.

Africanidades faz sucesso por onde passa

O site Africanidades acabou se tornando uma conquista pessoal para Ketty. Já é possível encontrar quase 80 títulos de autoras como Antonieta de Barros, Bell Hooks, Futhi Ntshingila, Jarid Arraes, Maria Firmina, Noémia de Sousa Virgínia Bicudo. São 11 sessões: ciências sociais, feminismo, ficção, não-ficção, obras de referência, quadrinhos, poesia, religião, infanto-juvenil, biografias e artes - todas voltadas à cultura negra.

"A maioria dos temas trata da questão do resgate da identidade e história antes da escravidão, a valorização das mulheres negras e também das dificuldades de visibilidade. É uma literatura que tenta dar respostas às questões sobre a violência que o povo negro sofreu e ainda sofre hoje".

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Ketty afirma que o Nordeste brasileiro é o campeão de vendas na loja online. Já as periferias de São Paulo, por meio do comércio itinerante, concentram o seu público mais fiel. "Existem muitos saraus, autores e uma efervescência literária muito forte na periferia, e isso vem acontecendo há muito tempo. As pessoas não têm noção da quantidade de literatura que é produzida e comercializada na periferia. As mulheres estão produzindo zines e organizando eventos como forma de militância".

Para a bibliotecária, essas atitudes são uma forma de legitimar uma literatura marginalizada. "Nós, como população negra, devemos documentar as vivências e os nossos sentimentos. Não podemos menosprezar a nossa literatura, pois o que a gente produz é conhecimento e cultura sim".

Literatura negra para crianças e adultos

Ketty reuniu três obras variadas para quem deseja embarcar no universo literário feminino negro. Confira três títulos que, na opinião da bibliotecária, são imprescindíveis para todas as leitoras:

Mundo no Black Power de Tayó - Kiusam de Oliveira 

O mundo no black power de Tayó

Tayó é uma menina negra que tem orgulho do cabelo crespo com penteado black power, enfeitando-o das mais diversas formas. A autora apresenta uma personagem cheia de autoestima, capaz de enfrentar as agressões dos colegas de classe, que dizem que seu cabelo é "ruim". "Vocês estão com dor de cotovelo porque não podem carregar o mundo nos cabelos", responde a garota para os colegas.  É uma narrativa transformadora, que traz metáforas sobre a riqueza cultural de um povo e a imaginação de uma menina.

As Lendas de Dandara - Jarid Arraes

As lendas de Dandara

Na sociedade do período do açúcar, a casa-grande era a residência do senhor de engenho. Seu conforto contrastava de modo gritante com o tratamento cruel aos seus escravos. É contra essa estrutura odiosa que se ergue Dandara dos Palmares, guerreira e companheira de Zumbi, que luta à frente das formações de palmarinos dispostos a reconquistar a liberdade e a dignidade para si e para seus irmãos escravizados. "As Lendas de Dandara" é uma jornada fantástica que busca preencher lacunas de uma história do Brasil que nunca foi bem contada.

Leite do Peito - Geni Guimarães

Leite do Peito

Indicado para o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e Selecionado para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) em 2006, o livro é uma referência autobiográfica que narra de forma tocante as lembranças de uma menina negra crescendo e se fazendo mulher. O sonho de ser professora e o amor da família são as forças que ela tem contra as dificuldades financeiras, os preconceitos e ainda ser amiga e defensora da irmã deficiente mental.

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Por Mayhara Nogueira

Capa: Arquivo pessoal