Joana Mariani e Paula Trabulsi discutem tolerância em doc

Cineastas mergulham no símbolo de Nossa Senhora Aparecida

Publicado em 22/02/2018
Joana Mariani, Maria Bethânia, Paula Trabulsi

"Nós somos diferentes, misturados, esquisitos, lindos, feios, pobres e ricos, mas antes a gente era feliz, por que está se perdendo essa felicidade?", questiona Maria Bethânia. As palavras da cantora fazem parte de uma série de entrevistas trazidas pelo documentário “A Imagem da Tolerância”, das diretoras Joana Mariani e Paula Trabulsi. O longa estreia em São Paulo no início de março. 

A ideia da obra é mergulhar no tema da tolerância por meio da imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil que, simbolicamente, ultrapassa as barreiras religiosas e raciais. Para os seus fiéis, a santa representa o papel feminino do amor, do acolher e aceitar as diferenças. Já para quem não tem relação com temas religiosos, o filme é uma reflexão sobre o Brasil contemporâneo, cujo povo passa por dificuldades em conviver com discordâncias de opiniões. 

Depois de uma jornada de uma década na produção do documentário “Marias - A Fé no Feminino", que discute o significado e a importância da imagem da Virgem Maria na vida as mulheres latino-americanas, Joana Mariani, em parceria com Paula Trabulsi, deseja ampliar a investigação sobre a devoção. A dupla conta as suas motivações para retornar ao tema, em entrevista ao Bar de Batom.

"Apesar de não ser religiosa, sempre tive relação com imagens e ícones da igreja católica, principalmente Nossa Senhora. Com o lançamento de 'Marias' e, coincidentemente, a celebração dos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida, na sequência, tivemos vontade de estender a discussão e abordar a importância dela para os brasileiros de todos os credos, raças, classes sociais e gêneros", afirma Joana. "A oportunidade de falar sobre tolerância num momento de tanta rispidez foi decisivo. Se o documentário inspirar respostas mais acolhedoras com as diferenças ao nosso redor, já é um prêmio!", completa Paula. 

"Madroeira" do Brasil

cartaz filme A Imagem da Tolerância

Além da tolerância, a imagem de Nossa Senhora Aparecida suscita a discussão sobre a força e o poder feminino. Em depoimento, Irmã Lina Boff, Professora Emérita do Departamento de Teologia da PUC-Rio, acredita que para iniciar o assunto é preciso afastar o gênero masculino ao se referir a Aparecida. "A Nossa Senhora é madroeira do Brasil, e não padroeira, que vem de pai, padre. Maria não é padre, é mãe", explica.

Para o monge Lama Michel Rinpoche, a imagem de Nossa Senhora resgata valores ausentes na sociedade atual, que está focada em produzir e que deixou de lado o verbo "sentir". "O conceito do feminino nos falta muito. Nós vivemos em uma sociedade patriarcal, a qual dá muita importância para que as coisas sejam feitas no tempo certo, do jeito certo e da forma certa. É muito materialista. E a energia feminina do acolher, cuidar do ambiente, da intuição é extremamente importante", afirma.

Para Joana, embora seja o momento de autodescoberta, autovalorização e autoaceitação feminina, o arquétipo de Maria, a sua história e simbologia de poder, mesmo que de forma indireta, tem a capacidade de motivar essa geração. "Apesar da imagem de Aparecida ser um retrato da mulher brasileira - negra, pobre, encontrada quebrada jogada dentro de um rio e, mesmo assim, alçada ao posto de rainha e padroeira do país -, não acho que as mulheres façam esta associação direta entre a 'mãe de Deus' e si próprias. A religião inclusive faz questão de afastar a comparação de mulheres com Maria ao defini-la como 'Virgem Maria', alguém que teve um filho sem sexo, o que é impossível. Mas a espiritualidade - não a religião - dá força a essas mulheres para que elas se levantem e exijam os seus direitos, ainda que, inconscientemente, o arquétipo de Maria também as ajuda", comenta.  

Para Paula, a figura de Aparecida é guardiã dos valores do "feminino", que se tornam um grande segredo para a construção de uma cultura de mais harmonia. "Acolher, integrar, escutar e compreender são verbos normalmente conjugados da porta para dentro de casa. Mas hoje, com nosso mundo tão caótico, intolerante e devastado, precisamos muito destes valores também da porta para fora. Conjugar esses verbos é a chance de convivermos juntos cordialmente, em especial no Brasil. O feminino como inspiração!".

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Mulheres no cinema brasileiro
 

diretoras Paula e Joana com Padre Fábio de Melo

Dirigido e produzido por mulheres, "A Imagem da Tolerância" também lança discussão sobre a crescente participação feminina na linha de frente do cinema brasileiro - como diretoras, roteiristas e produtoras -, em um cenário ainda tão dominado por homens. 

Joana, uma das fundadoras da Produtora Mar Filmes, vem construindo uma carreira sólida no cinema. Ela foi assistente de direção de dois filmes de Heitor Dhalia: "O Cheiro do Ralo” e "À Deriva". Além de assinar dois curtas premiados: “Cotidiano" e “Cavalo", seu recém-lançado “Marias” foi distribuído mundialmente pela Netflix. Atualmente, a cineasta está finalizando “Todas as Canções de Amor”, seu primeiro longa-metragem de ficção.

Paula, é cineasta e empreendedora. Foi cofundadora e sócia da BossaNovaFilms, onde atuou por nove anos. Recentemente, ela fundou a ASAS.BR.COM - um Colaborativo Internacional de Inteligência Criativa, que desenvolve e produz conteúdos originais. Paula também é sócia no cinema Caixa Belas Artes desde 2014. Soma ainda no currículo o longa transmídia “Astro”, 11 curtas-metragens, as séries “Humanidade [em Mim]” e “Humanidade em Nós”, ambas exibidas pela GNT. 

Para Joana, o cinema é apenas um reflexo da sociedade, na qual existem mais homens do que mulheres em praticamente todas as áreas de mercado de trabalho, principalmente em posições de liderança, como é o caso da direção. Mas esta realidade está mudando aos poucos. "As mulheres vêm conquistando espaço em posições de liderança, com resultados significativos: já tivemos o primeiro Oscar para uma diretora mulher e temos grandes nomes femininos presentes nos grandes festivais mundiais de cinema. Ainda existe uma longa estrada, mas este caminho já começou a ser percorrido. A tendência é que a igualdade chegue um dia. Ainda que este dia não seja amanhã, estamos trabalhando para isso."

"A Imagem da Tolerância” tem produção de Diane Maia, da Mar Filmes, ASAS.BR.COM, em coprodução com Globo Filmes, Globo News e TV Aparecida. O doc conta com entrevistas de Maria Bethânia, Padre Fábio de Melo, Rabino Nilton Bonder, o monge Lama Michel Rimpoche, entre outros. A pré-estreia do documentário acontece dia 5 de março, às 21h, no cinema Caixa Belas Artes, em São Paulo.

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação