Francesas defendem cultura do assédio e internet responde

Políticas consideram 'perigoso' discurso contra a #MeToo em carta ao Le Monde

Publicado em 10/01/2018
Mulher cabisbaixa triste

Dois dias após um protesto de peso das atrizes no Globo de Ouro com diversos discursos empoderadores, como o de Oprah Winfrey, contra o machismo e a desigualdade de gênero, as manchetes se voltaram para as francesas, com uma carta publicada nesta terça-feira (9) no jornal Le Monde, intitulada Defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual.

No texto, as autoras criticam o que denominam de clima de "puritanismo", que teria se perpetuado após as sucessivas denúncias de assédio contra poderosos que estão vindo à tona. Personalidades da França como as atrizes Catherine Deneuve e Ingrid Caven, a cineasta Brigitte Sy e a escritora Catherine Millet estão entre as autoras da carta polêmica.

Em crítica à #MeToo, elas escreveram que os acusados, sem a oportunidade de se defender, foram colocados no mesmo nível que infratores sexuais. "Os homens foram obrigados a se demitir enquanto eles estavam apenas errados por terem tocado um joelho, tentarem roubar um beijo, falarem sobre coisas 'íntimas' em um jantar de negócios".

Para elas, toda essa repercussão das mulheres contra os assediadores atende a interesses conservadores e extremistas, contra a liberdade sexual. "Essa febre para enviar 'porcos' ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se capacitarem, serve realmente os interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários". 

O conteúdo causou repercussão nas redes sociais. A secretária de Igualdade de Gênero Marlène Schiappa, da França, considerou "perigoso" o discurso da carta ao Le Monde. "Neste manifesto há coisas profundamente chocantes. Nós já temos problemas para que as jovens compreendam que se um homem esfregar o sexo contra elas é uma agressão", disse em entrevista à rádio France Culture, publicada em seu Twitter.

A atriz Asia Argento, uma das denunciantes de Harvey Weinstein, foi uma das mais ácidas contra as autoras:

"Catherine Deneuve e outras mulheres francesas dizem ao mundo como sua misoginia interiorizada as lobotomizaram até o ponto de não retornar", tweetou. Ela também pediu a opinião de Marlène Schiappa sobre a carta, ao que a secretária respondeu:

"Não estou ciente de um homem que foi demitido por 'tocar o joelho de uma mulher' inadvertidamente na França como descrito aqui, mas, se ele existir, me avise".

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Também na política, a senadora francesa Laurence Rossignol afirmou que "esta carta é uma bofetada contra as mulheres que denunciam a violência sexual. Só serve aos agressores”, segundo O Globo

E a ativista e política Caroline de Haas também se manifestou. Acompanhada de um emoji indicando espanto, ela tweetou: "As mulheres assinam uma plataforma na @lemondefr para defender o direito de assaltar as mulheres sexualmente (e insultar feministas). 2018 parece ser bom".

Coletivos feministas franceses classificaram como "revoltante". No Twitter, a associação Osez le féminisme escreveu: "Em face da consciência atual, as mulheres defendem a impunidade dos agressores e atacam as feministas".

Atualização: Catherine Deneuve se desculpa com vítimas de assédio

Catherine Deneuve

Em nova carta publicada neste domingo (14), agora ao jornal Libération, Catherine Deneuve se desculpou com as vítimas de assédio sexual que poderiam ter se sentido ofendidas com as suas colocações. A atriz foi procurada pela reportagem do veículo para responder às críticas sobre o seu posicionamento, ao que ela esclareceu com uma carta.

"Saúdo fraternalmente todas as vítimas de atos odiosos que podem ter se sentido prejudicadas pela carta publicada no Le Monde, é para elas, e somente para elas, que me desculpo", escreveu Catherine.

Contudo, ela declarou que mantém as suas opiniões contidas no texto, mas destacou que não quis dizer que o assédio signifique algo bom. O que ela não concorda, reforçou ao Libération, é com as punições dos assediadores de perderem trabalhos no meio artístico e sofrerem linchamentos nas redes sociais antes de serem legalmente julgados. "Esse clima de censura me deixa sem palavras e preocupada com o futuro da nossa sociedade".

A atriz também lembrou que, no passado, assinou um manifesto escrito por Simone de Beauvoir pela legalização do aborto. Com isso, concluiu que os "conservadores, racistas e tradicionalistas de todos os tipos" que se viram representados em sua carta ao Le Monde, que ela não os apoia. Ela ainda defendeu a educação de "meninos e meninas" para mudar essa realidade.

Fotos: Pexels/Reprodução Instagram