'Faça você mesma': conversamos com integrantes do Riot Grrrl

História do punk rock feminista no Brasil vai virar documentário

Publicado em 02/10/2017
Gigi Louise segura cartaz com nomes de bandas do Riot Girl, em cena do documentário

Flavia ensina garotas a ter uma banda, Didi fala sobre o feminismo e a liberdade nas suas músicas, Bah carrega em seus shows o nome de uma das maiores ativistas pelo direito das mulheres da história do Brasil - e Leticia conta a trajetória de todas elas. 

Participantes do movimento de punk rock feminista Riot Grrrl, todas essas mulheres, quase 30 anos depois da chegada dele por aqui, mostram com suas histórias que o lado empoderador, acolhedor e transformador do Riot foi mesmo definitivo nas suas vidas. E mais: que ele continua sendo perpetuado para outras mulheres e meninas ainda hoje.

E é por isso que Leticia, mais precisamente a cineasta Leticia Marques, as convidou para participar do seu mais novo documentário Faça você mesma. Sentindo a lacuna que existe no meio cinematográfico sobre a história do punk rock - e muitas outras - contada por figuras femininas, ela idealizou um projeto completo de audiovisual que foi parar no Catarse e, com o apoio de muitas pessoas, ela e sua equipe, majoritariamente feminina, estão colhendo entrevistas pelo Brasil e Estados Unidos para lançar oficialmente o trabalho no primeiro semestre de 2019.

O foco é o Riot Grrrl, que desembarcou no Brasil nos anos 1990. Nessa época, a guitarrista Flavia Biggs, a baterista Didi Cunha e a própria Leticia Marques viram no movimento o que vinham procurando há muitos anos: se sentir realmente parte de algo. 

Em entrevista ao Bar de Batom, elas relembraram os anos de Riot e adiantaram o que aguardar no documentário, que reúne ainda depoimentos de mais dezenas de mulheres. "Queremos que as mulheres e o Riot Girl brasileiro ganhem o reconhecimento que merecem, que mais pessoas vejam que existem mais mulheres na música - que elas sempre existiram - e que isso seja escrito na história", declara Leticia. 

'Mulheres super poderosas, cheias de atitude, tocando guitarra, gritando'

A relação das Riot entrevistadas pelo Bar com o movimento só reforça uma velha premissa que o feminismo e demais movimentos que lutam pela igualdade defendem: a importância da representatividade. Didi conta que foi vendo a baterista Lou nos palcos com As Mercenárias que decidiu o que queria fazer para o resto da sua vida. 

"Quando eu comecei a tocar, com uns 15 anos, não tinha muitos modelos de bateristas mulheres, e isso mudou com a chegada das Mercenárias. Quando eu as vi tocando, falei 'eu também quero tocar bateria, quero ser como a Lou'. Para mim, isso foi um começo", recorda.

Depois, com a vinda do Riot Grrrl ao Brasil, foram introduzidas por aqui outras bandas compostas majoritariamente por mulheres que viraram novas inspirações para Didi. Entre as suas preferidas, ela cita Sleater-Kinney e até mesmo Hole. "A Courtney Love era muito excomungada pelas riots americanas, mas aqui ela chegou no mesmo balaio de gato: mulheres super poderosas, cheias de atitude, tocando guitarra, gritando… E eu achava tudo aquilo o máximo!". 

Outra banda que serviu de inspiração para Didi foi Bikini Kill, que foi também o primeiro contato da guitarrista Flavia Biggs com o Riot Grrrl - e com a sensação incrível de pertencimento, já que o movimento punk, antes do Riot, ainda reproduzia o machismo da sociedade. Por meio das letras poderosas do grupo de Washington, como Rebel Girl e Feels Blind, é que a então adolescente Flavia, que aos 13 anos tinha sido presenteada com sua primeira guitarra, encontrou um elo que unia tudo o que ela já amava. "Quando eu ouvi falar de Riot Girl, juntou coisas que tinham tudo a ver comigo: a música, o movimento punk e a luta das mulheres".

Com essas referências, estava feito: Didi virou a baterista do Elevador e Flavia, aos 14 anos, começou a tocar guitarra - aos 16, já tinha uma banda para chamar de sua, a The Biggs. Também foram seis anos dedicados ao posto de integrante de uma das maiores bandas de punk rock feminista do Brasil, a Dominatrix, que em 2017 completou 20 anos do lançamento do primeiro álbum, Girl Gathering, pioneiro do movimento Riot por aqui.

Movimento transformou a vida (de todas) do documentário

Enquanto essas mulheres dominavam os palcos, na plateia estava Leticia Marques assistindo todas elas. "Eu tive sorte de nos meus 14, 15 anos ter um grupo de meninas que saíamos para andar de skate, íamos em shows juntas, nos apoiávamos e nos uníamos. Isso foi muito importante, porque era um pré-Riot Girl, já era a essência do movimento", recorda a cineasta.

Mas foi realmente com as bandas do Riot Grrrl, brasileiras e estrangeiras, que ela definitivamente se identificou. "Eu percorri a minha adolescência com elas, e me marcaram completamente, me formaram e me deram aquela segurança, conforto e pertencimento que até então eu não encontrava em cultura alguma".

Documentarista Leticia Marques

Leticia também conta que foi com o Riot que ela encontrou valores muito falados e difundidos hoje pelo movimento feminista - o que foi transformador. "Quando eu conheci o Riot Girl, mulheres feministas e entendi um pouco sobre sororidade, união de mulheres, foi quando eu comecei a ver o mundo de outra forma - acho que de uma forma mais humana, de querer me relacionar mais com elas, de me sentir mais segura e que eu posso fazer qualquer coisa".

Não à toa, ela decidiu homenagear esse movimento em um registro inédito, reunindo material de arquivo e entrevistas tanto com mulheres que formaram o Riot brasileiro quando o movimento chegou aqui, como outras mais jovens, como Bah Lutz, que continua dominando a cena do punk rock feminista aberta por essas mulheres com sua banda Bertha Lutz, fundada por ela em 2006 em Belo Horizonte.

Bah é uma das personagens principais do Faça você mesma e está sendo filmada este mês. Mesmo tendo se envolvido com o Riot um pouco mais tarde, em 2003, para ela o aspecto transformador do movimento é exatamente o mesmo das integrantes mais antigas.

"As bandas Bulimia e Dominatrix foram as minhas maiores referências e sem dúvida o som que transformou minha vida. Daí para frente fui me envolvendo em projetos e organizações culturais feministas e formei a Bertha Lutz com as minhas amigas".

Com o significado de "garota em revolta", Riot Grrrl era exatamente o que Bah sentia na sua adolescência, daí o lado acolhedor do movimento que ela também sentiu. "Quando eu era adolescente, havia muita revolta em mim, um sentimento de não pertencimento muito profundo. Após conhecer o Riot Grrrl, encontrei a minha turma, me identifiquei com as mensagens e comecei a me envolver com feminismo e iniciar minha trajetória de construção política. Isso foi um marcador muito potente na minha vida".

Objetivo do documentário é levar os ensinamentos do Riot a todas 

Além das músicas do Bertha Lutz, o Riot Grrrl ecoa até hoje com as letras do Comma, banda de Didi Cunha com Mini Lamers. Juntas, elas cantam a liberdade como em Quem manda aqui é o coração, lançada neste ano.

"Eu acho que a contribuição que o Riot deixou foi essa coisa de poder construir juntas uma coisa nova, uma cena", coloca Didi. "Quando você tem uma banda, um público e as pessoas estão falando a mesma língua que você, é uma sensação muito louca, parece que você adquiriu super poderes. A partir daí, a gente troca com o público, com as outras bandas, com todo mundo. E eu acho que isso ninguém tira nunca mais de você".

Para Flavia Biggs, é também esse empoderamento a maior herança que ficou do Riot Grrrl. "O Riot me empoderou e eu acredito que esse empoderamento que eu tive me deu a oportunidade de passá-lo para outras pessoas, mostrar que todas podem fazer o seu som, se expressar através da música, se colocar na sociedade e lutar pelos direitos da mulher", declara a guitarrista, que também é socióloga e educadora - caminho que ela declara ter sido escolhido pelo que aprendeu com o Riot -, responsável pelo Girls Rock Camp, um acampamento, que também vai aparecer no documentário, dedicado a ensinar garotas a ter uma banda de rock e a provar que essas meninas podem ser o que quiserem. 

E essa constatação Leticia também quer trazer com Faça você mesma. "Que mais meninas e mulheres se reconheçam, se identifiquem com o movimento e se sintam pertencidas como eu me senti lá nos meus 16 anos, e que essas histórias cheguem a várias outras pessoas, não só no Brasil, mas no mundo", finaliza a documentarista.

O documentário está com 70% do material filmado, com algumas entrevistas para finalizar em São Paulo e Belo Horizonte. Com os cerca de R$ 21 mil arrecadados pelo Catarse - 70% do esperado - e mais apoio externo, a equipe acabou adaptando algumas filmagens, e o lançamento oficial deve ocorrer em 2019, afirma Leticia. Posteriormente, a ideia é exibir o trabalho em várias cidades e, também, países, para que toda a herança do movimento continue ecoando. 

Por Luciana Faria

Fotos: Divulgação