Escritora feminista portuguesa é convidada da FLIP

Maria Teresa Horta vai participar da festa literária em julho

Publicado em 07/05/2018
Jovem escritora Maria Teresa horta fumando em uma biblioteca

Maria Teresa Horta (80), escritora feminista portuguesa, é uma das convidadas da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece no final de julho. A escritora soma em seu currículo mais de duas dezenas de livros publicados - entre poesia e ficção -, inúmeras histórias de perseguição política, episódios de violência contra ela e até a "participação" da queda de um regime em seu país.

Foi a primeira pessoa que tentamos trazer para a Flip deste ano, em uma mesa especial - um encontro com a autora para falar sobre sua trajetória. Infelizmente, ela não pode viajar de avião por questões de saúde, então decidimos fazer sua participação via vídeo”, diz Josélia Aguiar, curadora do evento literário em entrevista ao site El País.

O encontro terá a presença de outras duas escritoras, ainda não divulgadas, que irão dialogar com Teresa Horta através de vídeos previamente gravados em Lisboa, onde vive a escritora. “Será uma mesa sobre a poesia de Maria Teresa, sobre ela e sobre a conexão poética entre Brasil e Portugal”, explica Aguiar.

Histórico de resistência

maria teresa horta

Pouco conhecida por leitores brasileiros, Maria Teresa Horta tem carreira literária que se confunde com sua atuação feminista e política, e por isso tem diversos pontos semelhanças com Hilda Hilst - poetisa homenageada nesta 16ª edição da Flip. Em 1972, ainda sob o salazarismo, ela e duas amigas também escritoras, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, ficaram conhecidas como "as três Marias" (foto abaixo). Elas ganharam fama após a publicação do livro "Novas Cartas Portuguesas", que faz referência à troca de correspondências e ao romance de Mariana Alcoforado, uma freira do século XVII, com seu amante, um soldado francês.

O livro se transformou em um símbolo da queda do regime salazarista, período de governo de Marcelo Caetano. "Após a publicação, aconteceu o que esperávamos: perseguição política, proibição de venda da obra, passaportes apreendidos, idas à Polícia Judiciária e o processo posto pelo Governo de Marcelo Caetano, por obscenidade, pornografia e atentado aos bons costumes”, relembra a escritora.

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as três marias

Omitindo a autoria dos trechos do livro, "as três Marias" enfrentaram a perseguição com o apoio internacional de figuras como Simone de Beauvoir, Marguerite Duras e Christiane Rochefort. “Foi o maior movimento de solidariedade feminina internacional de que há memória”, diz a escritora.

Nessa época, contudo, Teresa Horta já era uma autora conhecida e perseguida pelo regime português. “A explosão do Novas Cartas foi antecipada pela publicação de Minha Senhora de Mim, de 1971, em que Maria Teresa revisitou a lírica tradicional portuguesa ao escrever poesias com fundo erótico”, diz Ana Maria Domingues, doutora em Letras pela Universidade São Paulo (USP). 

livro minha senhora de mim

Depois da publicação de Minha Senhora de Mim, o livro foi apreendido e a editora Dom Quixote ameaçada de fechamento.  Um dia ela foi espancada por três homens que a atiraram no chão e, sem parar de bater, gritavam: “isto é para aprenderes a não escrever como escreves”. Mas o episódio só deu mais força à escritora. “Há pessoas que não se calam e eu não nasci para me calar”, diz Teresa Horta.

Em 25 de abril de 1974, poucos dias antes de uma audiência judicial que julgaria "as três Marias", aconteceu a Revolução dos Cravos. Com isso, Marcelo Caetano caiu, o regime acabou e o processo contra elas foi extinto. Teresa Horta deixou de ser uma autora perseguida em Portugal para se tornar um símbolo literário e de resistência do país. 

Foto: Divulgação/Facebook Maria Tereza Horta