Equilíbrio emocional: importância para mães e educadores

Isabella Ianelli ministra curso sobre felicidade genuína e mente mais saudável

Publicado em 05/04/2018
instagram Cynthia Kittler

Lidar com as próprias emoções e, ao mesmo tempo, educar e ser um bom exemplo na vida dos filhos não é uma tarefa fácil. E quando os filhos são de outras pessoas, no caso os alunos, o esforço é redobrado. Isso porque mães e professores convivem com elevada expectativa pessoal, pedagógica e social. Para lidar com a demanda, ambos os lados acabam se dilacerando emocionalmente para atingir níveis de perfeição irreais. E, por conta disso, terminam o dia cheios de frustração e infelicidade. 

Na segunda reportagem da série "A importância do autoconhecimento", o Bar de Batom conversa com a educadora Isabella Ianelli, que desenvolveu um curso focado em ferramentas para mães e educadores cultivarem o equilíbrio emocional. O programa é baseado no treinamento Cultivating Emotional Balance, criado por um dos psicólogos e estudiosos de emoções mais influentes do século XXI, Paul Ekman, e o estudioso de meditação e doutor em física Alan Wallace. Em entrevista, Isabella discute a relevância de encontrar a felicidade genuína e conquistar uma mente mais saudável, a fim de gerar impacto positivo na própria vida e, consequentemente, na vida e educação das crianças. 

Fazendo acontecer

isabella ianelli

Isabella é formada em pedagogia pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Arte e Educação. Ela também tem formação como atriz e estuda a aplicação de técnicas de meditação na educação infantil. "Comecei a ler e a estudar meditação para crianças, a fim de ajudá-las a despertar compaixão, atenção, senso de comunidade e cuidado com o outro. Comecei a investigar e acabei desenvolvendo um trabalho, posteriormente apresentado em congresso. Por meio da evolução do trabalho, ouvindo os meus colegas e por meio da minha própria experiência como professora, percebi que podia ir mais além", explica. 

Como professora, Isabella sabe a rotina árdua de uma sala de aula. "Existe muita demanda na educação de uma criança, principalmente na escola. Esse é um lugar de muita expectativa pedagógica e comportamental. Por conta disso, os professores acabam se reprimindo ou tentando solucionar os problemas a todo custo.  Por isso, para lidar com essa rotina nada fácil, é preciso direcionar o olhar para as próprias emoções."

A fim de encontrar uma metodologia eficaz que pudesse contribuir com a discussão, Isabella se aprofundou em um programa chamado Cultivating Emotional Balance Training. Desde 2011, o curso acontece anualmente, em países diferentes. São 45 dias de imersão profunda, absorvendo técnicas sobre como usar e ensinar habilidades emocionais.  

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"O treinamento nasceu do diálogo entre Paul Ekman, Alan Wallace e Dalai Lama, em uma convenção com vários estudiosos, no Mind & Life Institute, em março de 2000. Em um certo momento, o monge solicitou que as ideias importantes levantadas nessas sessões, especificamente como administrar os obstáculos cotidianos das emoções destrutivas, fossem transformadas em um treinamento acessível para a sociedade", explica Isabella a respeito da história do treinamento. 

Assim, depois de uma década de estudo e pesquisa, Ekman e Wallace construíram um curso completo e profundo, exclusivo para professores - público com grande influência na sociedade. Os ensinamentos trazem ferramentas para atingir o equilíbrio emocional a partir de práticas meditativas, gentileza amorosa, alegria empática, compaixão e comunicação interpessoal construtiva. Após a experiência em 2017, na Itália, Isabella vem compartilhando esses ensinamentos com educadores, professores, mulheres e mães.

4 pilares para o equilíbrio emocional

praticas meditativas

No curso proposto por Isabella, as atividades são trabalhadas sob os quatro pilares do equilíbrio emocional, desenvolvidos por Ekman. O primeiro é o Equilíbrio Conativo, que ensina a alinhar as intenções e desejos a fim de conquistar mais bem-estar e felicidade genuína - que não estão ligados aos bens materiais, dinheiro ou, até mesmo, ao sucesso da educação de alunos e filhos.

"A maioria das pessoas deseja um nível inalcançável de felicidade, depositando a exigência no outro ou em algo", explica Isabella. "Mas,  digamos que um dia o seu filho se joga no chão no shopping ou o seu aluno tem uma atitude ruim na sala de aula. O que vai acontecer? Os olhos de todos vão se voltar para você e, nesses casos, acontece uma grande sensação de frustração. Isso porque estamos sempre no olhar do outro. Por conta disso, é comum se julgar mãe e professora péssima. Mas será que o insucesso daquele momento significa que você é uma pessoa péssima?", questiona. 

A segunda inteligência a ser trabalhada é o Equilíbrio da Atenção, o qual equivale a aprender a focar no momento presente e no que realmente importa. "É comum pedir a atenção constante das crianças, mas o fato é que nem nós mesmos conseguimos nos concentrar por muito tempo. Como vamos explicar ou ensinar a uma criança como se deve fazer?", indaga a educadora.  

Para desenvolver o nível de atenção, Isabella propõe práticas de meditação - atividades com foco na respiração e nas sensações do corpo. "Uma pessoa pode ser uma motivação muito forte, mas não vai muito longe se não tiver atenção. Por isso é muito importante aprender a deixar os pensamos destrutivos de lado e obter mais concentração. No dia a dia, você acaba entendendo quais são as ações que estimulam a atenção e desatenção da criança."

O Equilíbrio Cognitivo é a terceira inteligência a ser desenvolvida, a fim de estimular a visão e a percepção mais clara possível da realidade. "As nossas visões de mundo são muito limitadas. Contestar esse olhar fará você entender que cada pessoa tem uma forma de enxergar as coisas. Não existe uma verdade absoluta. Essa percepção garante meio caminho para obter mais sabedoria." 

Já a quarta e última inteligência é o Equilíbrio Emocional, uma forma de entender a origem e como lidar com as emoções. "Ajudo as mães e professores a construir a sua própria linha do tempo de emoções, nomeando e transformando as experiências emocionais vividas diariamente. Com o tempo, elas vão perceber os gatilhos da raiva e aborrecimento. É uma tarefa que ajuda a destrinchar e não se engajar nas emoções, captando a faísca, antes de acontecer a chama", explica. 

Redes de apoio

grupos

Isabella lembra a importância de acabar com o mito da mulher perfeita, que atende a todas as demandas da sociedade. "A mulher em geral tem uma carga cultural enorme: ela precisa ser boa em tudo, manter a casa em ordem, ser 'bela, recatada e do lar'. Acreditamos nesse sentimento e dificilmente expressamos essas nossas emoções", explica. "Mas quando entramos em contato com as nossas emoções, percebemos que não vamos conseguir ter uma casa maravilhosa, um filho educado e ainda ser magras. E se conseguimos dividir esses fatos com outras mulheres, vamos perceber os mesmos dilemas", comenta. 

Buscar meios para se conhecer melhor é necessário, porém é um trabalho que deve continuar ao longo da vida, principalmente com ajuda de redes de apoio. "É muito difícil lidar com as emoções, por isso é importante que a mulher construa as suas redes apoio, que seja um grupo ou uma amiga", explica. "Alguém para você falar sobre os seus sentimentos, como raiva, ciúmes e fuga. Com o tempo, você vai perceber que as emoções são naturais, e que, na realidade, você não é um monstro. Esse é um exercício não só para mães e professoras, mas para pessoas de todas as áreas."

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação/Capa Instagram Cynthia Kittler/ Fotos: Michelle Magrini