Entrevista com Tifanny, 1ª trans no vôlei feminino do Brasil

Atleta do Vôlei Bauru falou ao Bar sobre a história que vem fazendo no esporte

Publicado em 22/12/2017
Tifanny sorrindo

Nas últimas semanas, o nome de Tifanny Abreu, ou simplesmente Tifanny, dominou a internet. A ponteira/oposta do Vôlei Bauru ganhou destaque como a primeira transexual na história do vôlei feminino nacional e da Superliga. Aos 33 anos, a atleta, antes Rodrigo, ganhou permissão da Federação Internacional de Voleibol e foi regularizada pela Confederação Brasileira de Voleibol para atuar entre as mulheres em quadra.

Por sua trajetória - que começou ainda em 2001 -, para a jogadora, o que ela carrega é bem mais que títulos, é uma bandeira. A bandeira pelo reconhecimento e direitos dos LGBTs, assim como de todas as pessoas que enxergam uma sociedade sem preconceitos. "Tenho orgulho de representar todas, todos", destacou Tifanny ao Bar de Batom.

Em uma entrevista exclusiva, ela falou mais sobre representatividade, a sua volta ao interior paulista - a atleta atuava na Europa -, sua experiência em equipes masculinas antes da cirurgia de transição de sexo e, ainda, os planos futuros no esporte.

O que o marco de ser a primeira atleta trans a atuar na Superliga representa para você?

Eu não me sinto especial ou melhor que as outras meninas jogadoras - me trato como uma atleta normal. Mas eu estou abrindo portas para que outras, que têm medo de ser quem são e principalmente para meninas que deixaram o esporte por medo de não serem aceitas, possam seguir uma carreira no futuro também.

E como foi atuar pela primeira vez na Superliga feminina?

Foi bom! Ansiedade a gente tem sempre que vai jogar o primeiro jogo, que seja até Regionais, o campeonato que for. Espero fazer melhor nos próximos, poder ajudar mais a equipe. O que mais me faz feliz é a forma que a torcida te levanta, te ama, te abraça junto com a causa, junto com o time, a sempre vencer. Essa é a melhor coisa que tem!

Esse retorno do público, da torcida e até a sua própria atuação surpreendeu?

Na verdade não. Eu já vinha assistindo aos jogos da arquibancada. Então eu já tenho esse carinho da torcida e das pessoas de outras cidades também. Eu já sabia que eles estavam me apoiando e foi simplesmente maravilhoso saber que agora tenho uma torcida do meu lado.

E o retorno das jogadoras tem sido positivo também? 

Elas estavam esperando ansiosas para eu jogar, porque agora estamos com o time completo. Então agora o nosso time fica mais forte, mais competitivo e, com todas as jogadoras em forma, podemos fazer uma liga melhor.

Você sentiu alguma diferença de receptividade da torcida ou da equipe por ser uma atleta trans quando você estava jogando fora? Ou foi a mesma coisa?

O mesmo carinho. Se vier qualquer outra atleta, famosa ou não, elas vão tratar com o mesmo carinho especial. Eu não sou diferente a ponto de jogar sozinha, eu não jogo sozinha. Então eles me amam como amam todas as outras jogadoras também.

Você começou a transição em 2013. A partir desse período, você chegou a sentir alguma forma de preconceito em quadra?

Não, nunca senti, sempre foi tudo bem respeitado. Na verdade, quando eu jogava com os meninos eu já percebi que eu era mulher, e eles e a própria federação já queriam que eu fosse para o feminino. Mas nessa época eu estava jogando na Bélgica, e não podia ainda porque os documentos não estavam prontos.

E por que você escolheu o nome “Tifanny”?

Não fui eu que escolhi na verdade. Todos os meus amigos já me chamam de Tifanny desde 2003 quando eu morava em São Paulo - um nome mais carinhoso. Então, quando fui trocar de nome, já fiquei com esse. Mas fui adotada como Tifanny há muito tempo.

Você sente diferenças entre jogar em equipes femininas e masculinas?

No masculino você tem que ter muita testosterona, força, tem que saltar muito, dar muita porrada. Mas a força é totalmente diferente das mulheres, então precisei me adaptar. O corpo se adapta onde você está.

Você se sente feliz por ser um exemplo de representatividade?

Eu sinto que eu carrego uma bandeira. Querendo ou não, eu tenho que carregar essa bandeira, porque eu sou uma atleta trans. Então eu carrego e tenho orgulho de representar todas, todos. Todos os LGBTs, assim como todos os héteros cis - todos que têm amor no coração eu estou representando.

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O que você pretende conquistar ainda mais na sua carreira como atleta?

Como toda atleta, eu também tenho as minhas ambições. Jogar bem, chegar no mais alto nível possível. E, quem sabe um dia, uma seleção. Mas isso vai depender do meu nível, não só do meu nome.

Você acha que o Comitê Olímpico Internacional (COI) tem evoluído no tratamento em relação aos atletas trans?

O COI já tinha uma lei para os transgêneros poderem participar do feminino, que é o meu caso. E a nova lei, que evoluiu agora de verdade, é que as atletas trans sem cirurgia podem participar também, desde que os hormônios delas estejam abaixo do limite. Então isso está evoluindo, está crescendo, e é muito bom, porque lá dentro eles têm médicos especialistas para poder falar “sim” ou “não”. 

Mas muitas pessoas ainda questionam a atuação de atletas trans em times femininos. O que você acha desse tipo de postura?

Muita gente fala “ah, mas o corpo masculino tem o osso mais grosso, maior”. Se tem o osso maior é até pior, porque a pessoa vai ficar mais pesada, assim como com hormônio, meu filho! Então não adianta tentar achar um argumento, que não é você que vai mudar isso. Não são as pessoas de fora que devem decidir se podemos jogar ou não, é quem realmente sabe do assunto, é a ciência. No dia que o COI mudar, aí temos que aceitar e seguir. 

E o que falta para uma maior inclusão de pessoas trans no esporte?

Eu acho que os estudos vão melhorar, e aí sim a inclusão vai ser maior ainda. Aí as pessoas que não entendem nada podem quebrar a cara, porque para quem fala é muito simples. Mas quem nunca passou por um tratamento hormonal não pode falar. Você não vive no corpo de outra pessoa. Se simplesmente você engordar, já não consegue ter o mesmo rendimento. Com o hormônio é igual, ele muda, mesmo que sua cabeça continue a mesma.

Por Luciana Faria

Foto: Divulgação/Vôlei Bauru