Entrevista com Thaiz Leão, criadora do projeto 'Mãe Solo'

Objetivo do trabalho da designer é desconstruir a romantização da maternidade

Publicado em 03/07/2017
Entrevista com Thaiz Leão, criadora do projeto 'Mãe Solo'

Não existe mãe solteira. Mãe não é estado civil"- Papa Francisco.

As sábias palavras ditas pelo pontífice em 2014 coincidiram com o ano do nascimento de Vicente, filho da designer, ilustradora e quadrinista Thaiz Leão. Ao se deparar com o desafio de criar sozinha uma criança, ela decidiu retratar percalços e alegrias da maternidade através de tirinhas bem-humoradas.

O projeto intitulado Mãe Solo conta com mais de 70 mil curtidas na página oficial do Facebook e quase 5 mil seguidores no Instagram. O aumento dos números prova que ele está ajudando cada dia mais as mães que se vêem obrigadas a cuidar de tudo sozinhas, independentemente se estão em um relacionamento ou não.

Em seu trabalho, Thaiz levanta bandeiras como a desconstrução da romantização que envolve a maternidade, amamentação livre, quebra de padrões comportamentais definidos por gêneros, empoderamento e o papel dos pais na criação dos filhos. E foi sobre esses e outros temas que o Bar de Batom conversou com ela. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Depois que você se tornou mãe, sua concepção do que é ser uma "boa mãe” mudou com a experiência na prática?

Sim! Na verdade, antes de me descobrir mãe eu não estava me preparando de fato para o papel, eu acho que nem pensava muito a respeito disso, a ideia de ser mãe vinha depois da ideia de ter uma família, um companheiro, uma casa e um desenvolvimento profissional. Para mim, ser mãe seria "segurar as pontas", que é o exemplo que eu tenho da minha avó, da minha mãe e das minhas tias. Eu nunca achei que a relação familiar fosse tão romantizada e que daria tudo certo. Eu tinha uma ilusão de que algumas coisas fossem garantir isso: dinheiro, estabilidade e ter um parceiro, mas não! (risos)

Ser mãe é a função mais difícil que você já teve que exercer?

Sim! (risos) Surpreendentemente, sim. Eu acho que ela ganha de ser mulher. Ser mãe é uma função que não tem limites, não tem hora ruim, não tem "eu" antes. Você tem que garantir o feijão com arroz, a mistura, a salada… É difícil ser mãe para mim, é difícil ser mãe para o meu filho, é difícil ser mãe para a sociedade e é difícil ser mãe na minha família. Ser mãe é o trabalho mais difícil da minha vida e o que me exige mais até hoje.

O que você parou de condenar em certos comportamentos maternos só depois que passou a viver na pele a experiência de ser mãe?

Eu tinha a ilusão de que com algum esforço conseguiríamos dar conta de tudo. Eu nunca cheguei a condenar, mas um trauma que tinha com a minha mãe era de não participar, não brincar, não estar junto, apenas focar em trabalho e casa. Eu condenava ela por isso. Mas depois que eu virei mãe entendi como é difícil conciliar tudo. Então eu parei de criticar, agora eu sei o quanto é difícil. Às vezes temos que focar no básico, que é fazer chegar com vida, saúde e alimentado no fim do dia, e para muitas mães não dá para ir além do básico.

Thaiz Leão e Vicente

Quais características da sua personalidade mudaram após a maternidade?

Eu acho que as potencialidades que eu tinha de ser empática, carinhosa e emotiva aumentaram. A maternidade me dá abertura para ser mais humana. Eu sou meio dura, sou um modelo de feminino fora do padrão, sempre fui aquele feminino que masculinizam por aí, por ser bruta mesmo. Eu vim de um lugar difícil, trabalhei muito para chegar onde eu estou, e sou filha de pernambucano com roceira. Pelo amor, eu vim da terra seca (risos). Mas depois que o Vicente nasceu eu me senti muito mais à vontade em construir um caminho legítimo para expressar meu eu feminino mais interior, do zelo, do cuidado e do amor puro. Eu me sinto demonstradamente muito mais afetuosa, maternal, emotiva, aflorada e mais sensível.

Confira os vídeos do Bar de Batom no YouTube

Em que medida a maternidade ajuda ou atrapalha em um processo de crescimento do empoderamento feminino?

Eu acho que não atrapalha em nada. Se você está em um processo de crescimento e empoderamento e não for mãe vai viver várias questões que não serão menos dolorosas, porque terá a cobrança da maternidade. O ser mãe não me atrapalhou em nada, ele me trouxe muito mais inquietação em relação a mim, a gênero, status, posição e equidade. Na maternidade eu tenho uma função diária que é prática: dar banho, comida e cuidar. É uma função que eu "trampo", então eu tenho menos tempo para existir e para fazer existir o meu eu intelectual. Para mim, o obstáculo do empoderamento não é ser mãe, mas sim a falta de estar com outras mulheres, a falta de tempo e energia, porque eu estou bancando sozinha a existência de uma criança.

Em uma cidade frenética como São Paulo, é possível ser bem-sucedida simultaneamente como mãe e profissional? Dá para fazer as duas coisas bem?

Sim, é possível, mas não será a grande maioria que fará isso, aí entramos na discussão do que é ser uma boa mãe, porque ser uma boa profissional às vezes é ser uma boa mãe. Nós não temos menos capacidade de trabalhar e de ser mãe, mas dependemos de possibilidades. No esquema de vida de São Paulo, em que somos completamente estóicos ao que é trabalho, o que é ser profissional e muito mais ainda ao que é ser mãe, eu acho inviável - alguma coisa você vai ter que ceder. 

Mãe Solo - Tirinha

Você conta com a colaboração de muita gente (família e amigos)? Você acha que esse tipo de assistência é essencial?

Absolutamente! Quando uma mulher descobre que está grávida e que decide continuar, a primeira coisa que deve fazer é chá de bebê de rede. Tem que convocar amigos e família, é preciso de muita gente para fazer o negócio dar certo sem surtar. Então, pra mim, assistência é essencial, é seguridade social. No meu caso, tenho apoio parcial da minha família porque eles moram longe. Eu tenho o pai do meu filho, mas é 75% x 25% - a maior parte da "treta" é comigo, e os amigos também, mas a minha maior rede de assistência é a creche, ela é a extensão da minha casa, é a galera com quem eu realmente posso contar.

Você se tornou mãe em um momento propício na sua vida? Acredita que exista um período melhor na trajetória de uma mulher para a maternidade?

Bom, em relação à faculdade não foi um momento legal, em relação à grana também não, trabalho também não e relacionamento muito menos. Eu tive o Vicente quando ainda estava terminando a faculdade e estagiando, então não era previsto. Mas se naquela época me perguntassem se eu teria um filho quando tivesse 30 anos e fosse uma diretora de arte, eu acho que falaria não, então foi aquele momento. Eu decidi ser mãe porque eu achei que rolava, foi um instinto mesmo. Acho que não existe uma regra, cada um tem que estar em paz com aquilo que escolher e se orientar por aquilo que promove bem-estar e empoderamento.

Se não existisse toda essa romantização envolvendo a maternidade você acredita que menos mulheres escolheriam ser mães?

Eu acho que as mulheres estão escolhendo não ser mães desde sempre, mas a desromantização está dando armas para elas conseguirem se posicionar sobre algo que elas já querem. Conhecimento é poder e se dermos essa ferramenta para elas entenderem o que é a maternidade, o que há dentro dela e o que vai ser tirado dela, elas terão maiores e melhores ferramentas para tomar essa decisão que vai mudar a vida delas. Ser mãe é uma escolha, então as mulheres precisam saber o que vai acontecer e o que não vai acontecer também, é preciso desromantizar em todos os sentidos.

Mãe Solo - Tirinha

Você acha que, se existissem menos cobranças e "pitacos", seria mais fácil essa jornada?

Com certeza, qualquer coisa que não atrapalha está ajudando. Se as pessoas projetassem menos expectativas individuais nos outros seria mais fácil fazer qualquer coisa, mais fácil manifestar gênero, cor, enfim, viver. Sem o julgamento e a cobrança da super mãe seria mais fácil alcançarmos o lugar do possível, porque ele é sempre mais legal do que o idealizado.

Que tipo de comportamento em certas mães atualmente você considera errado?

A única coisa que eu acho errado é você querer forçar alguém a ser o que ela não é. Se as pessoas estão contra o que você acredita então vamos conversar, mas errado é desenhar uma forma que você acha correta e ideal e querer jogar todo mundo dentro dela, não podemos projetar nos outros a realidade que não vivemos.

Quem para você é um exemplo como mãe?

Toda mulher para mim é um exemplo como mãe. Como eu não romantizo, acredito que todas estão fazendo o melhor que podem. Mas os maiores exemplos são as maternidades que eu vivi mais de perto - da minha mãe, tias, avó e madrinha. Eu prefiro a mãe real, aquela que mora aqui do lado, aquela que eu vejo. Então para mim o maior exemplo são as mães que existem.

Mãe Solo - Tirinha

Pretende ter outro filho? Caso sim, faria algo diferente?

Eu pretendo ter outro filho sim, e não pretendo de jeito nenhum que seja no mesmo modelo do que eu tive agora, que é de estar sozinha. Mas também não quero ter alguém se for para bancar tudo sozinha. E nunca tirei da minha cabeça a ideia de adotar uma criança. Então pretendo ter outro filho, mas não sei quando nem como, a única regra é: não bancar sozinha se tiver um cara junto. Não idealizo engravidar novamente, mas se engravidar legal, se não, vamos adotar com todo amor do coração.

Você acha que seu filho vai se divertir com as suas tirinhas no futuro, quando ele começar a entender?

Não sei! (risos) Algumas coisas eu faço para ele, mas a maioria faço para mim mesma, tanto que essa questão da exposição dele nos quadrinhos é uma coisa que sempre me incomodou. Tem várias coisas que eu queria fazer história, mas fazem parte da nossa intimidade, então eu dou uma segurada em boa parte do conteúdo, e deixo para fazer só no caderninho dele para ele ver quando crescer, e quem sabe se ele liberar para o público quando estiver mais velho. Eu espero que ele não se incomode, tenho a esperança de que ele não vá se sentir diminuído com o trabalho.

Quais são seus planos para o Mãe Solo? Você já sabe aonde quer chegar com esse trabalho? 

Meu plano é dominar o mundo, a mente e os corações. Não, mentira! (risos) Eu quero criar conteúdo, viajar o mundo, conhecer e relatar a maternidade, desenhá-la, fazer animação, vídeo, documentário, livro, quero explorar antropologicamente, socialmente, imageticamente e semioticamente a maternidade do meu ponto de vista. Mauricio de Sousa que se cuide! (risos) Eu tenho muita fé e muito amor no conteúdo que eu crio, então eu quero ser generalizada, não quero fazer um conteúdo para pequenos grupos, quero atingir a maternidade no cerne mesmo e que tudo faça sentido, claro. 

Mãe Solo - Tirinha

Em seu site oficial Thaiz comercializa tirinhas, pôsteres, camisetas e o livro ChoraLombar - Maternidade na Real, que compila os trabalhos do projeto Mãe Solo. Ele foi produzido através de um financiamento coletivo bem-sucedido. 
 
Por Natália Lins