Entrevista com Paula Mirhan, da Filarmônica de Pasárgada

Cantora contou como é misturar humor e arte para combater o machismo

Publicado em 01/08/2017
Entrevista com Paula Mirhan, da Filarmônica de Pasárgada

Em 2014, um clipe com dezenas de pessoas dentro de um açougue dominou a internet. O espaço repleto de sangue e pedaços de carne ambientalizava uma música composta por assobios e uma voz feminina, que em versos simples transmitia uma mensagem direta: não à cultura do machismo.

A voz era de Paula Mirhan, vocalista da Filarmônica de Pasárgada. Polêmico, o trabalho, que aumentou a projeção do grupo formado por colegas de música da USP, ganhou destaque internacional e foi aderido em movimentos e palestras de especialistas contra o machismo.

Nada mais apropriado para artistas que, três anos depois, continuam abordando temas necessários e urgentes como esse e ainda preconceito e homofobia em diversas canções, que têm como porta de entrada ao público o humor. Todas são escritas pelo compositor Marcelo Segreto e ganham vida nos instrumentos dos integrantes e na voz de Paula.

Ao Bar de Batom, a cantora e atriz contou como é a recepção do público sobre os trabalhos da Filarmônica que envolvem essas temáticas e, também, criticou a maneira como algumas pessoas usam as redes sociais, tema do último álbum da banda, Algorritmos, lançado em 2016. 

Confira a entrevista completa:

Em que momento vocês perceberam que o trabalho de vocês era uma ótima ferramenta de conscientização?

Não sei se teve um momento exato, mas eu fico feliz que a gente chegue nesse lugar pelo humor. Eu acho que a maneira como o Marcelo [Segreto] compõe é irônica, o que pra mim não é uma risada boboca, é uma risada que você ri e logo você para para pensar um pouco sobre o porquê disso. Essa é a melhor forma, porque aproxima muito as pessoas - e quando você consegue aproximar, colocar a pessoa para entender o que ela está falando e ouvindo, eu acho que a música chega de uma outra forma.

E quais canções da Filarmônica mais retratam isso?

Nós temos muitas canções que falam de questões importantes da vivência paulistana ou mesmo de lutas que para nós são muito importantes, como o machismo e a homofobia. Kiwi é uma música que fala sobre isso e Fiu fiu e Ela é dela falam sobre machismo. Foi legal perceber que as pessoas curtiam o som também por causa disso. 

O processo criativo de compor músicas engajadas é mais difícil ou para vocês é algo natural (ou até mais fácil)?

O engajamento dentro da arte, para mim, não está desassociado da criação. Eu acho que a arte já é política por si só, desde que o artista leve seu discurso político para o que ele está fazendo. Agora, se o artista não é engajado, não necessariamente a música dele vai ser. Então não é uma questão de dificuldade. Eu acho que se você está prestando atenção nas discussões que estão em volta, se informando, necessariamente a sua criação vai levar isso em conta. 

Então toda arte é engajada?

Arte engajada deveria ser uma coisa natural, cotidiana. Não acho que isso tenha que virar uma caixinha - nós fazemos música. Eu também faço teatro e necessariamente meu teatro é engajado porque é a maneira como eu vivo, como eu estou pensando política. Se existe o nome música engajada, ele já foi colocada em uma caixinha, então para mim ela já deixou de ser engajada. 

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A arte com teor crítico e político no Brasil ainda tem muito espaço para crescer? Ela recebe a atenção necessária da grande mídia?

Qualquer arte engajada é um pouco mais difícil de ser engolida. As pessoas têm uma mania de falar "já vemos muita tragédia", "quando vou num show quero me divertir, não quero pensar", "quando vou ver uma peça eu quero rir" - como se rir fosse um costume, como se as pessoas não quisessem parar para pensar muito sobre os assuntos. Como se isso fosse dolorido, difícil. Então eu acho que a arte engajada não vai chegar na grande mídia. E se chegar é que deu errado, ou não também, isso pode ser uma bobagem da minha parte. Mas é que eu acho que se de alguma forma você chega na grande mídia, de alguma forma você foi cooptado por aquele universo, ele está usando você. 

Por quê?

Não acredito que você esteja na grande mídia por ser bom e talentoso, mas porque está servindo para alguma coisa. Acho até que a grande mídia tem a capacidade de pegar alguém e falar "você vai ser a música engajada agora", e essa música engajada não vai ser engajada. Eu acho que os Racionais [MC's] tiveram uma preocupação muito grande em relação a isso - eles nunca foram nas grandes mídias, porque achavam que não estava de acordo com o que eles estavam falando. 

Enquanto isso, canções com teor machista ainda são muito tocadas nas grandes rádios. Você vê que alguma rádio atualmente tem a preocupação de não tocar esse tipo de música?

A rádio que eu mais escuto é a Rádio USP e quando estou prestando atenção não me lembro de nenhuma canção que tivesse me incomodado pelo teor machista. E eu sou uma pessoa que presta bastante atenção nas letras (risos). Mas eu acho que mesmo essas rádios que têm preocupação em colocar música boa e também os artistas que têm engajamento político ainda correm o risco de deixar passar - é uma coisa que é bom que a gente se vigie, se pergunte, se encha o saco mesmo, porque não pode mais.

E as rádios mais comercias ainda estão muito longe do ideal?

As rádios que vivem de jabá, eu duvido que se preocupem com o teor das canções que elas colocam para tocar, porque o que importa é a questão financeira. E enquanto for desse jeito vamos continuar colocando essas músicas para tocar na rádio e as pessoas vão continuar achando que isso é normal. Está na hora de a gente parar para pensar sobre isso.

E como você vê que a arte pode contribuir para desconstruir determinados valores na sociedade que são negativos, como o machismo?

A arte tem esse poder a partir do momento em que coloca esses valores para serem discutidos. Mas acho que não temos o poder de dar as respostas de absolutamente nada. Nós, como artistas, não podemos nos colocar em um lugar de saber o que estamos falando, de afirmar coisas. Eu acho que a arte tem o poder de perguntar. Se questionar e nos questionar o tempo inteiro. O valor da obra artística e do artista está quando eles estão inquietos, inclusive se questionando. 

Como vocês receberam toda a grande repercussão que Fiu fiu teve?

Nós ficamos bem contentes, principalmente com as crianças cantando essa música. Eu fico bem animada quando vejo criança gostando, entendendo e cantando. Teve até um movimento feminista que pegou essa música para uma ação, gente de fora do país que usou em palestras contra o machismo, então foi disseminada mesmo. A canção tem uma comunicação muito rápida, automática - a letra fala diretamente, não tem meandro.

Mas essa canção deveria ser mais repercutida?

Eu acho que essa música tinha que estar tocando em todas as rádios (risos), porque é uma canção que toca em um assunto super importante para nós, mulheres, que estamos de saco cheio de andar na rua e ouvir muitos fiu fius. Estamos cansadas da cultura do fiu fiu ser normal, de as pessoas acharem que é algo que você está esperando ouvir e que isso é um elogio. Então a repercussão que teve acho que foi até pequena perto do que eu considero que deveria ter (risos). 

Em uma crítica ao machismo, vocês usaram Laerte como protagonista no clipe. Qual foi a intenção em colocá-la nesse papel?

Chamamos a Laerte porque ela tem muitas leituras que nos interessam. Além de ser muito próxima do Marcelo, ela tem a discussão de gêneros. Eu gosto muito de uma parte do clipe que a lente dá uma olhada nela de baixo para cima. É como se quiséssemos colocá-la nessa situação - um homem que resolveu ser mulher e acha que tudo bem. Não. Vamos ver como é ser olhada de baixo para cima. Claro que está longe de ser agressivo como é com as mulheres, porque afinal de contas ela ainda é um homem. É um homem que se colocou em um papel de mulher, mas ainda tem um poder masculino. 

Como foi a ideia de fazer o clipe em um açougue? 

Isso foi ideia minha. Eu sempre imaginava uns pedaços de carne pendurados porque é como eu acho que nós, mulheres, somos vistas. Um pedaço de carne que você dá uns tapas e espirra sangue. Ou então achávamos que tínhamos que fazer em umas vitrines, com roupas, como se fôssemos pedaços de roupas que você vai lá e compra - porque é essa a sensação que dá, é como se pudéssemos ser consumidas a qualquer momento na rua. 

No último disco que vocês lançaram, Algorritmos, as canções falam basicamente sobre internet. Como vocês acham que a internet, as redes sociais, entram nesse papel de desconstrução?

A internet é um lugar onde os fóruns de discussão foram levantados, onde se organizam manifestações. Ela tem esse poder e nos aproxima de todos os lugares do mundo. Mas eu acho que ela também se tornou um lugar de muito ódio. A ferramenta do Facebook, por exemplo, é muito maniqueísta. É curtir ou não curtir, não tem um meio do caminho, não permite sutilezas.

Então, sinceramente, eu não acho que ela tenha esse poder de desconstruir. A internet tem o poder de disseminar coisas, tanto para o bem, quanto para o mal. Mas eu ainda acho que a melhor forma de discutir essas coisas é no cara a cara, entendendo a entonação da voz das pessoas, sendo mediado por alguém. Não dá para ser mediado pela ferramenta da rede social, ela é muito injusta. 

E o humor, como entra aí?

O humor eu acho que é a chave das coisas. E a ironia que é o melhor, porque você aproxima. Quando você ri pelo reconhecimento, você se coloca na história, inclusive nós que estamos fazendo a música. Nós não nos colocamos no lugar de gente que sabe, e sim de quem está passando pela mesma situação. 

Algorritmos pode ser encarado como uma crítica também à sociedade e à maneira como usamos o digital?

Ao mesmo tempo em que a informação está chegando melhor, o interesse pela pesquisa não aumentou. As pessoas ficam no Facebook esperando que as informações cheguem. Não dá para generalizar, claro, mas o interesse precisa existir e não tem a ver com a ferramenta, ele tem que ser anterior. A ferramenta dá a impressão de que você está vendo e sabendo de tudo, e não está. 

Então eu acho que o Algorritmos não é necessariamente uma crítica, mas toca nesse lugar, fala sobre isso que estamos vivendo e coloca a discussão na mesa. Nós também nos colocamos na posição de que estamos deslumbrados. 

Perdemos o controle?

Eu sou bastante a favor das ferramentas que facilitem a nossa vida e a comunicação, mas eu tenho achado que está um pouco demasiado. Eu me assusto de ver uma família em uma mesa de restaurante com todo mundo no celular. Eu me policio em relação a isso, porque acho que exageramos. Às vezes estamos conversando com alguém [pessoalmente] e respondendo uma mensagem no celular. Eu acho que mudou-se o tempo das coisas - se você fica 20 minutos sem responder uma mensagem você pode perder um trabalho. O WhatsApp facilitou muito minha vida, de muita gente, mas estamos muito presos a ele. 

E como está a sua vida desde que abandonou o Facebook?

Eu estou fora do Facebook por considerar a ferramenta muito violenta, maniqueísta. Estou sofrendo um pouco por causa disso porque as pessoas às vezes ficam sem saber do meu trabalho como artista, porque o Facebook virou a única forma de as pessoas procurarem arte ou o que está acontecendo. Mas eu ainda bato o pé, não quero voltar. Acredito que estou melhor, mais feliz fora do Facebook. Inclusive para participar de discussões fora da rede social. 

Entrevista com Paula Mirhan, da Filarmônica de Pasárgada

Estamos no caminho certo para "desinverter" valores como o machismo e a homofobia?

Não sei se estamos no caminho certo, mas acho que estamos caminhando. Eu acredito que esse caminhar ainda é longo, vai demorar, mas quanto mais falarmos disso melhor. O ideal seria que essas discussões fossem para as escolas, mas é impressionante como existe medo de discutir essas coisas dentro da sala de aula. Não pode falar sobre homofobia, racismo, e isso eu acho muito retrógrado. Acho que ao mesmo tempo em que todo mundo está tendo acesso a tudo, e a internet entra nisso, nós estamos vivendo um momento retrógrado muito forte. 

Da onde você acha que vem esse retrocesso? 

Acho que é um movimento natural a esse movimento bom que está acontecendo de as mulheres se colocarem em lugar de luta, de conversa, de embate, porque ninguém quer debater, as pessoas têm medo e o que eu acho é que elas não têm argumento, porque para ter argumento precisa ler muito, ir atrás de informação, não dá para discutir só com o que você lê no Facebook. 

E aí entra a política também. Como queremos avançar com as discussões, se na rua discutimos feminismo, aborto, mas a bancada política é evangélica?  Não vai dar, vai ser muito difícil. Sou muito temerosa em relação ao que estamos vivendo politicamente, porque eu acho que está atrasando e vai atrasar muitos anos de discussão. 

Mas você vê avanços?

Eu sou muito otimista e estou feliz de ver muita coisa acontecendo na minha frente, especialmente em relação a filhos de amigos. Eu vejo que as crianças próximas da minha convivência já estão crescendo sem alguns desses valores, felizmente. Sem nenhuma preocupação em relação ao racismo ou à questão de gostar do amiguinho ou da amiguinha que é do mesmo sexo. Pelo menos estão discutindo isso em casa, e isso graças aos pais que estão nessas discussões.

Por Luciana Faria
 
Fotos: Divulgação