Entrevista com Marina Werneck, destaque no surf feminino

Ex-atleta hoje incentiva mulheres na categoria profissional da modalidade

Publicado em 16/01/2018
Marina Werneck pegando onda

Neste mês o Brasil promove sua primeira competição digital de surf para mulheres, a Sea Flowers Digital. A iniciativa é a idealização de um sonho de uma das maiores entusiastas do surf feminino no país, a carioca Marina Werneck. Ela, que há seis anos deixou os torneios profissionais para se dedicar ao freesurf e a ações de inclusão na modalidade, conversou com o Bar de Batom sobre como o esporte é mais uma forma eficiente de empoderamento.

Ela contou as barreiras que enfrentou para se destacar no surf, prática que lhe rendeu 15 prêmios, mas que por anos sofreu com a falta de torneios e apoio de patrocinadores às atletas no país. Cenário este que está ficando diferente, ela afirma. "Hoje as coisas estão mudando e nós, mulheres, estamos conquistando o nosso espaço", pontua Marina, que em 2015 organizou sua primeira competição profissional de surf para mulheres de nível internacional, na Bahia.

Marina Werneck também trabalha com a inclusão de pessoas com necessidades especiais no mar, por meio do projeto Adaptsurf, do qual é madrinha. A associação, sem fins lucrativos, ensina surf adaptado para quem tem deficiências e mobilidade reduzida, e luta pela acessibilidade do esporte e das praias no país, fazendo do surf uma ferramenta de transformação social.

E transformação é justamente o que Marina busca a cada dia incentivando as surfistas. Promover a união de atletas femininas e abrir mais espaço a elas são só os primeiros passos da esportista que, com isso, tem tudo para transformar o mundo também fora das ondas - fazendo dele um local muito mais igualitário para mulheres e homens.

Confira a entrevista completa:

Você começou a surfar aos cinco anos. Se lembra da sua primeira onda? 

Sim! Foi mágica a sensação de surfar a primeira onda em pé, lembro como se fosse ontem, na praia da Barra da Tijuca, meu padrasto me empurrando na onda na prancha dele e eu indo deslizando do outside até a areia.

Por que você escolheu ser surfista profissional? 

Minha relação com o oceano e com o surf sempre foi muito especial. Quando eu comecei a competir e vi que o surf poderia transformar minha vida e também me levaria para conhecer o mundo, eu decidi me tornar uma surfista profissional.
 
Você sentiu que por ser mulher precisou quebrar mais barreiras no surf profissional? 

Eu sempre fui muito incentivada pela minha família e pelos meus amigos, mas sim, por ser mulher sinto que precisei quebrar mais barreiras para seguir carreira num esporte que era considerado mais "masculino". As gerações que me antecederam tiveram que quebrar barreiras maiores ainda, mas hoje as coisas estão mudando e nós, mulheres, estamos conquistando o nosso espaço.

Marina Werneck saindo do mar com prancha na mão

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Você acabou de lançar o Sea Flowers Digital, em um momento em que não existe campeonato feminino profissional de surf no Brasil. O que você espera com a iniciativa? 

Eu espero incentivar e motivar cada vez mais meninas e mulheres a se dedicarem ao surf, seja seguindo carreira profissional ou simplesmente estarem na água pegando onda. Mas principalmente espero promover uma união entre o surf feminino e mostrar o poder que a gente tem quando agimos juntas empoderando umas as outras.

Campeonatos como o Sea Flowers Digital podem ser positivos para lançar ao mundo novas atletas brasileiras no surf? 

Com certeza! Temos muito talentos no Brasil e a nova geração está vindo com tudo. Acredito muito em novas atletas brasileiras disputando títulos mundiais e olímpicos.

Teve algum momento específico em que você notou que era hora de montar uma competição profissional para mulheres?

Desde 2012 eu vinha sentindo na pele a falta das competições para mulheres no Brasil, foi quando decidi mudar o foco da minha carreira de competidora passando a atuar como freesurfer e, em 2015, consegui montar uma competição profissional para mulheres de nível internacional na Praia do Forte na Bahia. A intenção é realizar cada vez mais eventos para mulheres no Brasil.

Marina Werneck de perfil olhando o mar

Hoje as competições ainda são muito divergentes em relação aos prêmios aos surfistas homens e mulheres. Por que isso ainda acontece e como podemos mudar? 

Ainda são muito divergentes, sim, muito pelo motivo de terem mais homens competindo. Mas as coisas estão mudando, na elite do circuito mundial os prêmios hoje são iguais entre os homens e as mulheres.

O surf feminino está evoluindo? Os patrocinadores estão olhando com mais atenção à modalidade? 

O surf feminino está evoluindo muito, o nível de performance das meninas nunca foi tão alto e a imagem das surfistas tão inspiradora. E as marcas de surf estão voltando a investir no surf feminino, assim como grandes marcas do mercado também. As empresas querem incentivar mais mulheres a surfar, e as atletas profissionais começaram a despertar em si uma motivação de trabalharem melhor seu marketing pessoal valorizando sua beleza natural e estilo próprio - e atrelando isso a sua performance no esporte. 

Por que você escolheu ir para o freesurf? 

Dediquei muitos anos da minha vida às competições. Foi muito bom viajar o mundo em busca de títulos e evolução como atleta, realizei alguns sonhos como competidora e conquistei o espaço e o reconhecimento que tenho hoje com a história que construí através das competições. Escolhi ir para o freesurf quando senti a necessidade de ampliar meus horizontes como surfista profissional, poder surfar com mais liberdade e explorar mais o lado do marketing produzindo conteúdo, criando projetos que valorizem o surf feminino como um todo, inspirando cada vez mais mulheres a surfar e fazer o que amam. 

E como está sendo o seu trabalho com o Adaptsurf?

Sou madrinha do Adaptsurf, um projeto muito especial que tenho o prazer de contribuir com bastante carinho. Eles fazem um trabalho legal utilizando o surf como ferramenta de transformação na vida de pessoas com necessidades especiais, tornando o esporte e a praia acessíveis para todos e proporcionando uma troca muito especial entre alunos e voluntários.

Mais do que a sua profissão, o surf faz parte do seu estilo de vida. No que a prática interfere e transforma quem você é?  

O surf é o que guia a minha vida desde criança, me conecta com a minha essência, me proporciona liberdade, desafios, conexão com a natureza, consciência. Eu busco ser uma surfista melhor a cada dia, assim como eu busco ser uma pessoa melhor a cada dia. Quando estou surfando eu me expresso com toda a minha verdade, me inspiro a cada onda, me encontro e entro em sintonia com as minhas intenções. Fora do mar, levo essa energia comigo para o meu dia a dia, buscando viver as coisas que eu acredito e amo com a mesma intensidade.

Por Luciana Faria

Fotos: Divulgação/NN Consultoria/Facebook Marina Werneck