Entrevista com Maria Thereza, criadora da Empooderadas

Marca de camisetas utiliza os seios como tema e promove a aceitação do corpo

Publicado em 30/11/2017
Maria Thereza sorrindo

Uma das partes mais erotizadas do corpo feminino, os seios são motivos de muita polêmica entre a sociedade. Proibidos tanto nas ruas quanto na publicidade, eles sempre são condenados quando expostos. Mas a designer Maria Thereza decidiu mudar esse cenário.

Ela, que atua no mercado da moda, começou a bordar seios em camisetas e criou a marca Empooderadas, a fim de enaltecer essa parte tão importante do corpo feminino e promover a aceitação do corpo por parte das mulheres.

Em entrevista ao Bar de Batom, ela contou que depois que iniciou esse trabalho passou por um processo de reconhecimento e valorização de si mesma, e afirmou que ainda existem mulheres que não estão preparadas para usar uma camiseta com seios bordados. 

Confira a entrevista completa a seguir:

Por que você decidiu bordar seios?

Resolvi bordar seios porque sempre tive muitas questões relacionadas aos meus seios pequenos, por simplesmente amar a forma como eles são! Sim, ter peitos pequenos vivendo numa cultura onde muitas vezes você escuta (tanto de homens e principalmente mulheres) "nossa, você não tem nada'', "é reta, coitada", "mulher tem que ter peito", e não apenas aceitar, mas se orgulhar deles, é um ato de resistência. Dessa forma, bordei o quanto eles existiam e como eu sou orgulhosa deles, afinal, estampei para quem quisesse ver.

Encontrou dificuldade para seguir com essa nova escolha?

Eu fiz uma blusa para mim, sem nenhuma expectativa empreendedora, porém alguns dias depois a minha amiga Flavia Ribeiro, que tem um Instagram sobre moda consciente, pediu a blusa emprestada, postou uma foto e, no mesmo dia, eu vendi para quase todas as capitais brasileiras, para o Canadá e alguns países da Europa. Eu sinceramente acho que eu não posso dizer que passei por muitas dificuldades. A Empooderadas, assim como foi para mim desde o primeiro dia, deu voz para várias meninas que também queriam expor seu posicionamento feminista e de aceitação dos seus corpos.

Você sente que esse projeto está contribuindo para o empoderamento das mulheres?

O que eu escuto das minhas clientes é que elas usam como uma forma de militância pacífica, inicialmente desafiando os olhares, se surpreendendo com cada reação, que às vezes é de riso, de apoio ou até mesmo repreensão. De forma geral, são mulheres que se não são, estão pelo menos buscando se empoderar.

Modelo com camiseta branca bordada da Empooderadas

Já recebeu algum relato marcante de mulheres que usaram a camiseta bordada e se sentiram melhores?

Confesso que logo na primeira semana eu recebi relatos de mulheres que tiveram câncer de mama, e isso me emocionou muito, afinal de contas é uma dose muito maior de empoderamento passar por um tratamento em que se perde os dois maiores símbolos do feminino - o cabelo e o seio - e ainda assim se sentir não apenas sobrevivente, mas mulher e muito mais forte. Por isso, a t-shirt para elas tem um significado diferente, de luta, de sobrevivência, (des)construção e ressignificação delas mesmas.   

O que mudou na sua vida depois que iniciou esse trabalho?

Mudou tudo. Eu passei por um processo de me reconhecer, valorizar, até porque eu comecei a falar tanto para as minhas amigas nas redes sociais e palestras sobre empoderamento feminino que eu precisei me reconhecer como um ser empoderado. Não foi fácil, mas é um processo dolorosamente bonito. Inclui muitos questionamentos, desconstrução e constrangimento alheio, porque assim que você se reconhece como uma mulher feminista e empoderada, a última coisa que você quer é ficar calada.

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Você sente que ainda existem mulheres que não estão preparadas para usar uma camiseta como essa?

Nossa, muitas! Eu tenho várias amigas que não usam pelos mais variados motivos "poxa, eu sou mãe", ''eu preciso trabalhar a cabeça do meu namorado primeiro", "muito ousada pra mim". Para essas, eu respiro várias vezes e tento escutar, e nunca vender a camiseta, mas a história que a marca quer contar. Às vezes dá certo, às vezes não, mas cada uma tem seu tempo. E eu gosto também, afinal de contas eu nunca quis virar uniforme.

Maria Thereza sorrindo com camiseta preta

Por que você acha que seios à mostra no Carnaval, por exemplo, são aceitáveis?

Acho que aceitável é usar o que você quiser usar, sou extremamente contra essa hipersexualização do seio e corpo feminino. Acho irônico no país do carnaval ainda enfrentarmos esse tipo de debate. O corpo é nosso e temos o direito de usá-lo como quisermos. Seios não ejaculam, não mordem, não beliscam, por que não? 

Em diversos países fazer topless em praças públicas é considerado normal. Por que você acha que isso não está nem perto de acontecer no Brasil?

Porque temos esse moralismo intrínseco na nossa cultura, ainda vemos a nudez como materialização do pecado, exemplo disso foi o que fizeram com o artista Wagner Schwartz, que na sua performance, ele nu, sem nenhuma interação direta com o público, foi chamado de pedófilo quando uma criança tocou o seu tornozelo.  

E você acha que esse tabu contra os seios femininos pode ser ruim para a sociedade, já que não se pode nem mostrar um vídeo ensinando a fazer o autoexame para prevenir o câncer de mama que é censurado?

Acho que tabus machistas como esse são da mesma origem dos que consideram constrangimento a amamentação em público ou questões contra a legalização do aborto. São tabus que ferem nossos direitos e matam cada vez mais mulheres. Porque se o autoexame fosse divulgado em redes sociais, escolas e no meio familiar como uma prática normal e diária, muitas mulheres poderiam descobrir seus tumores na fase inicial, aumentando em quase 95% a chance de cura.

Camiseta branca com bordado Empooderadas

Neste ano uma modelo desfilou no SPFW com o seio à mostra e isso causou um grande rebuliço. Você acredita que a moda deveria investir em mais ações como essa para desmistificar o assunto?

Acho que a moda sempre foi um retrato da época em que estamos vivendo. Modelos nas passarelas com peitos nus já existiram, mesmo aqui no Brasil, mas acredito que esse rebuliço aconteceu porque estamos questionando isso de forma real, não apenas para a passarela, mas para as nossas vidas, para o nosso dia a dia. Acredito que é por isso que incomodou tanto. Se a moda deveria investir? Esse é o papel mais benéfico dela - trazer questionamento, fazer a gente evoluir, transcender!

De que outras formas é possível colaborar para o desprendimento desse tabu por parte das pessoas?

Conversando, trocando, dividindo as nossas experiências de abuso, educando as nossas crianças e os adultos também. Acho que quebramos tabus quando aprendemos a ter empatia com a situação do outro, quando lutamos por causas que não são necessariamente nossas, mas que vão fazer alguém muito mais feliz, aceito e leve.

Por Natália Lins

Fotos: Reprodução/Instagram