Entrevista com Fernanda Sanino, da Lumberjills

Marcenaria e tapeçaria criativa é comandada somente por mulheres

Publicado em 14/11/2017
Lumberjills Letícia e Fernanda de costas

Na década de 1940, quando os homens foram convocados para a Segunda Guerra Mundial, as mulheres tiveram que assumir papéis considerados exclusivamente masculinos. Na Inglaterra muitas começaram a trabalhar como lenhadoras, as chamadas Lumberjills. Inspiradas por essas trabalhadoras Letícia Piagentini e Fernanda Sanino (à direita) decidiram abandonar seus empregos corporativos para se aventurar no universo da marcenaria.

Na empresa de marcenaria e tapeçaria criativa aberta oficialmente em 2015 todas as peças são feitas exclusivamente por mulheres - as sócias e mais três ajudantes. O objetivo da Lumberjills é criar móveis personalizados para os mais diversos públicos. Elas são responsáveis pelo processo completo: desenho, produção e instalação das peças.

Cientes do preconceito presente nesse universo, a dupla se dedicou muito, estudou e se profissionalizou para provar que as mulheres podem fazer o que quiserem. Em entrevista ao Bar de Batom, Fernanda contou que elas se destacam no mercado pela forma comprometida com que trabalham. 

Confira a entrevista completa a seguir: 

No início, vocês fizeram móveis para as casas de vocês antes de divulgar para o público?

Eu já fazia algumas coisas em casa antes de ter a ideia de abrir uma marcenaria, e a Letícia já mexia com trabalhos de artesanato. E foi ela quem trouxe a ideia da marcenaria, então começamos a fazer cursos e durante eles começamos a produzir peças para os amigos e para a família. Após seis meses de testes, em janeiro de 2015 quando já tínhamos os cursos de marcenaria e tapeçaria decidimos abrir para o público.

Vocês tiveram incentivo por parte da família?

Foi um misto. Eles apoiam até hoje e gostam, mas no começo existia uma resistência por conta da preocupação com a nossa segurança. Existia um preconceito também, até da nossa parte, em pensar como faríamos um trabalho considerado masculino ou menosprezado porque afinal não precisa de uma faculdade para exercê-lo. Então tivemos que quebrar paradigmas nossos e das nossas famílias.

Vocês ainda sofrem preconceitos por ser uma área predominantemente masculina?

O preconceito existe, mas não por parte dos clientes. Infelizmente nós ainda sofremos preconceito pelo mercado, com fornecedores, parceiros e até mesmo outros marceneiros.

Lumberjills Leticia e Fernanda com ferramentas

Como vocês acham que as mulheres poderiam se interessar mais por essa área?

Eu acredito que tendo mais exemplos. É por isso que aceitamos qualquer tipo de exposição, no início nós tínhamos receio do que falar para a mídia, porque é levantar uma bandeira, e nós queríamos falar mais de marcenaria do que de feminismo. Mas hoje entendemos que é necessário, porque é uma responsabilidade nossa mostrar para as mulheres que elas podem e devem entrar nesse mercado se elas quiserem.

Vocês acham que se tornar empreendedora pode ser uma solução para as mulheres que sofrem por falta de reconhecimento no mercado de trabalho?

Muitas pessoas decidem empreender porque acham que é fácil, mas pelo contrário, se você se tornar um empreendedor você vai trabalhar muito mais. Mas eu acho que sim, seria um caminho legal para as mulheres serem reconhecidas por empreender, mas também porque não mulheres CEOs e diretoras? É algo que está acontecendo, a passos de tartaruga, mas está acontecendo.

E vocês têm que tomar algumas medidas para garantir a segurança de vocês quando frequentam determinados lugares? 

Sempre que somos convidadas a falar em rodas de mulheres acabamos falando sobre o machismo como um todo, mas o tema mais sério para se falar é o assédio. Nós tomamos algumas medidas porque já tivemos situações desagradáveis. Hoje não vamos mais sozinhas em uma instalação. Em visitas de orçamentos sim porque nunca tivemos problema com clientes, mas quando se trata de uma obra, na hora da instalação existirão outros homens no local, então por medida de segurança nunca vamos sozinhas, é triste, mas é necessário.

Lumberjills Leticia e Fernanda trabalhando

Os homens ficam confortáveis ao ser atendidos por uma mulher?

Eu acredito que os homens ficam mais desconfortáveis por ter que trabalhar para uma mulher. Por exemplo, na nossa oficina só trabalham mulheres, e nos perguntam se é porque não queremos homens, mas na verdade é porque não encontramos homens que são responsáveis, comprometidos e que respondam pra gente. Principalmente por conta do seguimento, quando falamos que eles devem fazer de tal forma, eles teimam e acabam fazendo do jeito que acham certo porque acreditam que mulher não entende nada sobre o assunto.

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E as mulheres, elas gostam mais de ser atendidas por outra mulher?

As mulheres e os casais LGBT. Tivemos muitos relatos de clientes homens homossexuais que preferem ser atendidos por mulher, por causa do medo de ser julgados ao pedir uma peça com strass, laço ou glitter. Quando são atendidos por um homem acabam recebendo um olhar reprovador e isso não acontece com uma mulher, por exemplo.

Lumberjills móveis nichos

O que é preciso fazer para conseguir se destacar nesse mercado?

Fazer o mínimo você já destaca. O mercado de marcenaria e tapeçaria ainda é muito informal, eles não têm site, e-mail ou uma rede social. E ainda tem a questão do comprometimento, que sempre ouvimos diversos casos de marceneiros que não aparecem ou que não terminam o serviço. Pelo fato de termos vindo do mercado corporativo trouxemos muito essa formalidade, então temos essa parte de encantar o cliente, agradar, responder na hora, chegar na hora combinada, falar quando vai atrasar, fatores que vão deixá-lo satisfeito. Então para se destacar nesse mercado basta ser honesto, sincero e ter comprometimento com o seu cliente.

Existe algum produto/móvel/tendência que vocês não gostam de forma alguma?

Fugimos muito de planejado, um porque não gostamos do que os marceneiros chamam de caixotes, e dois porque existem muitas lojas maiores que nós que fazem esse tipo de produto muito mais rápido e mais barato. Então realmente não fazemos planejados de jeito nenhum, o resto nós pensamos! (risos)

O que ainda é um desafio para vocês?

Encontrar parceiros na área para itens que irão compor as nossas peças, como um serralheiro ou um pintor, porque aqui nós fazemos apenas a parte da madeira e do tecido, então o restante precisamos de parceiros mesmo. E é muito difícil encontrar pessoas comprometidas como nós.

Lumberjills workshop com alunos

Vocês pretendem ampliar a empresa para outros tipos de negócio? Tem outros projetos em vista?

Começamos a mudar um pouco a empresa, acrescentar e ampliar com cursos. Sempre pediram mas acabávamos segurando por falta de espaço. Então em julho viemos para uma casa nova e fizemos nosso primeiro workshop em setembro e foi o maior sucesso, adoramos o resultado e fizemos outro em outubro. E também tem a loja virtual que deve inaugurar em janeiro de 2018, com alguns itens de decoração e peças menores, além de levar a sério nosso canal no YouTube.

O que significa ser uma mulher bem sucedida para vocês?

Ser uma mulher feliz no que ela faz, ter autoestima, ser feliz com você, com seus parceiros, feliz com seu trabalho. Eu acredito que isso é ter sucesso.

Por Natália Lins

Fotos: Divulgação/Reprodução/Facebook