Entrevista com Fernanda Moreira, autora do 'Ladrilha'

Artista leva resistência em forma de poesia às ruas do Rio de Janeiro

Publicado em 28/11/2017
Fernanda Moreira com os dizeres "Homem, tua fala não me cala"

"A tua beleza é linda. Toda beleza é linda". "Grávida de mim, quando vi: pari". "Saber doer, antes de saber doar". "Homem, tua fala não me cala". Essas e outras frases fazem parte do projeto Ladrilha, uma inciativa inspiradora que vem tomando conta das ruas de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

Poesias que falam de afeto, amor e resistência feminina são registradas em azulejos, os quais, por sua vez, são encaixados nas paredes de um dos bairros mais famosos da capital carioca. Por trás dessas intervenções está a jovem jornalista e artista Fernanda Moreira, de 29 anos.

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Ela, que já sentiu o machismo e a hostilidade ao divulgar as suas frases, acredita que a imagem da mulher artista de rua é sinal de resistência. Em entrevista ao Bar de Batom, Fernanda conta a sua história e o seu comprometimento com novas causas.

Podemos te chamar de poetisa?

Ainda não consigo tomar esse título para mim. Escrevo desde os 16 anos, mas estou entendendo isso aos poucos, buscando um lugar no universo da escrita. Penso em uma frase de Vinicius de Moraes que diz: "o homem que diz 'sou' não é, porque quem é mesmo é 'não sou'". Tenho um blog há algum tempo e escrevo muito o que está dentro de mim. E, se na literatura isso se encaixa gramaticalmente como poesia, então sim, eu escrevo poesia. 

De onde veio a sua paixão literária?

Aos 16 anos, quando comecei a estudar literatura, descobri o modernismo e me apaixonei. A minha vida se transformou quando li As Meninas, de Lygia Fagundes Telles e, depois, ao descobrir Adélia Prado. Aí passei a entender que era isso que eu queria fazer por toda a minha vida. Quase cursei Letras, mas eu também tinha um interesse muito grande por gente, uma curiosidade muito grande e, por isso, optei pelo jornalismo. A palavra ganhou um ressignificado na minha vida e passei a entender que com a palavra eu poderia impactar o outro. Fui escrever também para tentar me entender e me comunicar com essas entidades literárias, para me entender comigo mesma. 

 

amor é ocupação!

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Como nasceu o Ladrilha?

Eu sempre quis intervir na rua, mas não queria colocar o meu nome, porque sempre fui muito tímida. Mas ao mesmo tempo eu queria mostrar e, como eu falo muito de amor e afeto, queria algo que ajudasse a materializar o meu sentimento. Foi então que um dia meu namorado disse que colou um azulejo em Santa Tereza com o desenho do Cristo Redentor. Na hora já imaginei que as poesias poderiam ser em forma de ladrilho.

E como escolheu os primeiros textos?

Os primeiros vieram recortados de textos maiores, dos meus poemas. Hoje, acabo produzindo frases, que são escolhidas por série, as quais vou lançando. E Santa Tereza foi escolhido por ser o lugar onde eu moro. Antes eu preferia locais que tinham maior concentração de gente, para mais pessoas terem a oportunidade de ver os poemas. Mas agora penso que as pessoas já se socializam bastante nesses espaços - existe um ambiente de troca. Por isso eu venho pensando de forma estratégica, buscando bairros em que eu possa levar mais afeto e que tenham a necessidade de ver uma mensagem de amor.

Há dificuldade para a mulher artista estar na rua? 

Sim, por isso que eu escolhi colocar o nome Ladrilha no feminino e escrever poesias de amor e afeto para serem expostas nas ruas. Para mim, a rua é extremamente hostil e masculina. Não podemos vestir determinadas roupas, pois vão mexer com a gente. Quando estamos andando, precisamos verificar se há alguém nos seguindo. Nós, mulheres, sentimos medo. Por isso, a mulher estar na rua já é uma resistência. Mulher fazendo arte na rua é uma resistência. E a mulher fazendo arte de rua na rua também. 

Você já foi impedida de fazer o seu trabalho?

Já passei por um momento difícil, sim, justamente quando decidi colar um azulejo com os dizeres "homem, tua fala não me cala" em uma parede gigantesca, onde já havia o trabalho de outro artista. Depois que colei, ele pediu para tirar, porque achava invasivo. No começo eu fiquei chateada, porque a gente ouve sobre machismo o tempo todo, mas nós vamos entendendo o que significa à prestação. No entanto, a atitude dele me fortaleceu. Se ele se sentiu invadido por um ladrilho de 15x15 cm, diante de uma parede enorme, é porque as minhas palavras são fortes. Então vou continuar. Depois eu entendi que não colar teve mais significado do que colar, pois me provocou muitas reflexões como mulher e artista de rua.

E quais são os próximos desdobramentos do Ladrilha?

Recentemente, produzi uma frase nova: "amor é cura". Eu sempre quis que o Ladrilha fosse um projeto de muito afeto e tinha esse ideal romântico de levar amor para ruas. Mas estou sentindo que isso pode ser um gancho para levantar questões e bandeiras que não são necessariamente minhas, mas de pessoas próximas a mim. Então essa frase veio depois dessa loucura de cura gay. Eu estou conversando com pessoas que já sofreram homofobia e quero pegar aspas, registrar nos azulejos e espalhar nos locais mais atingidos por esse tipo de violência. Mas estou fazendo isso com cuidado - pode ser que se transforme apenas em estudos.

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação