Entrevista com Carol Sandler, criadora do Finanças Femininas

Objetivo do site é empoderar mulheres através da educação financeira

Publicado em 14/09/2017
Entrevista com Carolina Sandler, criadora do Finanças Femininas

Durante muito tempo, os temas tidos como integrantes do "universo feminino" eram apenas moda, beleza, casamento e maternidade. No entanto - felizmente - esse cenário vem se modificando, abrindo espaço para ampliar o leque de opções para nós.

A jornalista e economista Carolina Sandler decidiu fazer parte dessa mudança positiva, e fundou o Finanças Femininas, primeiro site do Brasil a falar de dinheiro somente para mulheres. Seu objetivo é promover o empoderamento feminino através da educação financeira, oferecendo as ferramentas necessárias para que elas se organizem e alcancem os resultados almejados.

Coautora do livro Finanças Femininas - Como Organizar suas Contas, Aprender a Investir e Realizar seus Sonhos, lançado em 2015, Carolina contou ao Bar de Batom que o seu trabalho tem mudado a vida de muitas mulheres e também ensinou que, para olhar para a educação financeira de forma mais natural, é preciso ler mais sobre dinheiro, ouvir pessoas e inserir esse assunto na sua roda de amigas.

Como surgiu o Finanças Femininas?

A ideia surgiu em um jantar com duas amigas que trabalham no mercado financeiro e que também são jornalistas - estávamos conversando sobre a emergência dos blogs e que daria para ter sites com conteúdos que não fossem apenas moda, beleza, casamento e maternidade. Então resolvemos criar um site, que inicialmente se chamaria 'Mulher Sem Tempo', que seria a mulher moderna, que faz de tudo um pouco. Ele teria dicas de todas as áreas e inclusive de educação financeira, que era o nosso foco. Então conversamos com diversas pessoas do mercado e todos falavam: "Esquece. Ninguém quer ser a mulher sem tempo, todas querem ser a mulher com tempo. Hoje é muito melhor você criar um site de nicho bem específico e se aprofundar nele". 

E assim fechamos em finanças, finanças para mulheres e então 'Finanças Femininas'. Mas as duas acabaram saindo mesmo antes dele ir ao ar, por questões profissionais delas, e eu decidi ficar e encontrei aqui um trabalho de vocação, de missão mesmo. Porque o nosso trabalho é mais do que finanças para mulheres, é empoderar essas mulheres através da educação financeira, usar essas ferramentas para ajudá-las a bancar suas escolhas e desafios do dia-a-dia.

Qual o impacto dos conteúdos do site na vida das mulheres?

É muito grande, porque nós recebemos diversos e-mails de mulheres desesperadas, super desorganizadas, precisando de um apoio, e depois recebemos também os depoimentos delas dizendo que conseguiram se livrar das dívidas, comprar um apartamento ou casar sem se endividar. Então eu brinco que tenho a caixa de entrada mais legal do mundo, porque eu tenho esse relacionamento muito próximo com as leitoras - é um negócio meio de amizade mesmo. Hoje, com todas essas plataformas, conseguimos ter uma proximidade muito grande. É diferente de antigamente, quando você tinha uma relação vertical e meio inatingível. Hoje não, pelo contrário, então conseguimos medir de perto o impacto que temos na vida das leitoras.

Homens e mulheres trabalham com o dinheiro de forma diferente?

Completamente. Os homens têm muito mais autoconfiança na hora de falar de dinheiro, então eles se sentem muito mais à vontade para falar, fazer e pesquisar. Para a mulher, dinheiro ainda é tabu - elas costumam falar de tudo, até de coisas muito mais íntimas, menos de dinheiro. Existem muitos fatores envolvidos, inclusive a síndrome da "boazinha", de querer agradar, fazer com que todos gostem. Então não pode se impor tanto, não pode pedir, não pode negociar ou ser mais agressiva, e tudo isso acaba prejudicando muito a relação de uma mulher com o dinheiro. Isso é algo que nós tentamos diariamente desamarrar e melhorar essa relação para deixá-la mais suave.

Quais os desafios que as mulheres enfrentam para alcançar a independência financeira em um mercado tão machista?

Os desafios de alcançar a independência financeira são enormes, seja para homens ou para mulheres. Mas para elas é ainda mais difícil, considerando que a grande maioria não tem educação financeira. O Brasil, em geral, vai super mal em educação financeira, e não falo de uma questão escolar, mas de hábitos e comportamentos saudáveis com dinheiro que podem ajudar a construir a independência financeira. Então, da mesma forma que quando você quer ir para tal destino precisa pensar se vai pegar o carro, comprar uma passagem de ônibus ou procurar uma carona, para a independência financeira é a mesma coisa. A educação financeira será um meio que vai te levar daqui até lá. 

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O que fazer para deixar esse caminho menos tortuoso?

É preciso olhar para a educação financeira sem tabu, com naturalidade, curiosidade, começar a ler sobre dinheiro, perguntar, falar sobre isso, ir em eventos, ouvir pessoas, ler o jornal. Tudo isso vai ajudar muito a alcançar a independência financeira, porque ela não é um mito. A aposentadoria com 1 milhão de reais qualquer pessoa pode construir se tiver dedicação e disciplina. Você não precisa ser boa de matemática ou de planilhas, você tem que pensar nos seus comportamentos, ser boa para priorizar, boa para abrir mão de certas coisas e ter paciência.

As mulheres são mais empreendedoras do que os homens?

Sim, hoje temos estudos do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) que mostram que as mulheres são 52% das pequenas e micro empresárias do Brasil, então é algo muito bacana. Mas eu acho que o empreendedorismo, apesar de ser algo muito almejado por homens e mulheres, tem um significado especial para elas. Quando você é dona de uma empresa, não terá mais gap salarial, então é uma forma de as mulheres terem uma renda cada vez maior, de conseguirem conciliar muito bem carreira e família, algo que em algumas empresas é considerado inviável. Então o empreendedorismo é uma solução ainda mais atraente para as mulheres.

Crescemos ouvindo que homens lidam melhor com números do que mulheres. Você acredita que esse é um dos principais fatores que ocasiona um resultado financeiro negativo para elas?

Sim, esse pode ser um dos principais fatores. Até pensando em faculdade, nos cursos de economia e administração, a maioria dos alunos são homens. Mas a questão não é só matemática, são várias posturas, e tudo isso joga contra a mulher. Vi um estudo no ano passado nos Estados Unidos que mostra que alunos de MBA recém-formados negociam o primeiro salário e as mulheres não. E isso dá uma diferença inicial de 4 mil dólares por mês. Ao longo da vida, isso vai dar um impacto de um patrimônio perdido de 500 mil dólares para elas. 

Negociar está dentro da educação financeira. Então, são diversos comportamentos que a mulher não é ensinada, são traços pensados como masculinos. Nós temos que subverter um pouco essa ordem e começar a levar esse conteúdo para o maior número de mulheres possível para conseguirmos um equilíbrio de gêneros real com relação a dinheiro.

Carol Sandler

Para quem que não gosta de números, o que fazer para começar a se familiarizar com eles e conseguir organizar melhor a vida financeira?

Você não precisa gostar de números para ser boa com dinheiro. Se você é boa para priorizar, montar um plano, para saber qual é o seu sonho, você tem total condição de organizar sua vida financeira. Uma vez estava conversando com uma leitora que disse que não fazia parte da personalidade dela gostar de dinheiro e controlar suas finanças. Mas isso não é uma questão de personalidade, mas de saúde - assim como temos que passar um fio dental nos dentes, nós temos que olhar para os nossos gastos e o dinheiro que vamos guardar todo mês. 

Temos que pensar que o INSS não vai bancar nossa aposentadoria, vai ser muito difícil, então nós temos que assumir o controle do nosso futuro. Não é um bicho de sete cabeças, existem planilhas que calculam por você e aplicativos, então o meio não importa, o que importa é olhar os seus comportamentos com relação a dinheiro. É isso que será transformador na sua vida.

Os homens ainda enxergam o despontar financeiro da mulher como um problema?

Eu ainda ouço aquela história "mulher minha não tem que se preocupar com dinheiro", "em casa quem ganha mais sou eu" ou "como é difícil um casamento em que a mulher ganha mais do que o homem". Mas a realidade é que quase 40% dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres, isso já é uma realidade, e o que nós trazemos é simplesmente como usar melhor esse dinheiro. Existe toda desigualdade salarial, de gênero, a dificuldade das mulheres de atingir cargos de liderança nas empresas, mas pense em como a sociedade sairia muito mais enriquecida se conseguíssemos diminuir esse gap salarial, como as famílias teriam mais renda, afinal a mulher ganharia mais. Então, todo esse empoderamento feminino no lado financeiro é algo que vai trazer frutos para a sociedade como um todo. 

Diminuir esses gaps impactaria na economia do país?

Hoje existe um cenário muito desigual. As mulheres ficam numa situação de vulnerabilidade muito grande, porque elas não são ensinadas a lidar com o dinheiro e o homens também acabam ficando com um peso enorme de que tem que ser o provedor num país com um padrão de vida tão caro. Um estudo da Organização Internacional do Trabalho afirma que reduzir a desigualdade de gênero em 25% até o ano de 2025 poderia adicionar 382 bilhões na economia brasileira - isso é equivalente a 3,3% do nosso PIB. Isso resolveria toda a crise fiscal.

As mulheres vêm se familiarizando com o mercado de ações?

Cada vez mais leitoras pedem para falarmos sobre esse assunto, mas ainda é um momento delicado para falar de ações. Nós estamos vivendo uma crise grande no Brasil, um momento de grande volatilidade, então eu acho que inicialmente as mulheres precisam olhar para o mercado de renda fixa, que tem investimentos super bacanas com retornos bem legais com um nível de risco super baixo. Investir é algo que se aprende aos poucos, então o ideal é começar no Tesouro Direto, olhar para um plano de previdência bacana, para o CDB e, aos poucos, ir se familiarizando para ir para ações em um segundo momento. As mulheres ainda são minoria no mercado de ações, são apenas 24% dos investidores brasileiros hoje, mas eu acho que isso vai crescer cada vez mais.

Como planejar as finanças ao decidir ir morar sozinha?

Para quem decide morar sozinha, é preciso planejar isso com muito cuidado, porque é um passo super importante na sua vida, então o essencial é fazer um plano realmente, uma planilha de quanto cada item vai custar. E a soma de todos os itens tem que equivaler à metade do seu salário, para a outra metade você gastar uma parte com supérfluo, e guardar dinheiro todo mês no fundo de emergência. Ter planejamento é a chave para você dar esse passo incrível na sua vida e ficar tranquila sem sofrimento.

Como você acredita que trabalhos como o seu contribuem no processo de empoderamento das mulheres?

Em primeiro lugar, nós levamos referências, mostramos que dá para ser de outra forma, que as mulheres conseguem ser boas com dinheiro, construir um patrimônio bacana e viver longe das dívidas. Então eu acho que isso é de um lado inspiração, porque ela vê que se uma conseguiu ela consegue também. Ninguém nasceu pronta, então conforme você mostra isso consegue motivá-las. E nós vemos que levar informação, conhecimento, casos e histórias pode ser transformador. 

O que ainda é um desafio para você?

Nós temos desafios enormes, é um mercado que está cada vez mais competitivo, cada vez mais criadores de conteúdo trazendo esse assunto com abordagens diferentes. E temos um desafio de nos estabelecermos como negócio. Hoje o Finanças Femininas é uma empresa, nós somos em sete pessoas trabalhando, fora os fornecedores que não ficam no nosso escritório. Então temos os desafios de todo empreendedor brasileiro - de montar um negócio, sobreviver e crescer durante essa crise.

Você poderia dar três dicas de ouro para manter a organização financeira?

A primeira dica é parar de ter medo. Dinheiro não é tabu, dinheiro é assunto para você, sim, então pense de que forma você pode olhar para ele com naturalidade, começar a ler sobre isso, conversar com as pessoas e começar a tirar suas dúvidas. Olhar para dentro, para pensar de que forma você pode ter uma relação mais saudável com o dinheiro.

A segunda é controlar os gastos. Eu ouvi uma vez que gasto é igual unha, tem que cortar sempre. Nós temos uma tendência de nos acomodar e querer gastar com tudo, vivemos numa sociedade impulsiva e imediatista, então para muitos é difícil fazer sobrar dinheiro no fim do mês. Controlar os gastos e guardar um pouco é a chave para você ter uma vida rica.

A terceira dica é usar o meu método 50/30/20, em que você pega seu salário líquido e 50% dele tem que ser os seus essenciais, 30% supérfluos e 20% para você guardar. Aí então entra como a quarta dica, que é guardar dinheiro todo mês. O plano de enriquecer e ter uma aposentadoria tranquila não vai acontecer por mágica, todo mundo tem chance, mas tem que começar fazendo. A chave é a consistência junto com o tempo, porque assim você terá os juros compostos ao seu favor.

Por Natália Lins

Fotos: Arquivo Pessoal/Reprodução