Entrevista com a poeta e slammer Mel Duarte

Artista utiliza a poesia para discutir e combater machismo e racismo

Publicado em 10/08/2017
Entrevista com a poeta e slammer Mel Duarte

A palavra tem um poder enorme. Quando dita com sabedoria e sentimento pode alcançar voos ainda maiores, e foi isso que a poeta Mel Duarte descobriu desde muito nova. Mas se antes ela se preocupava com as rimas, hoje seu foco é atingir o antro do machismo e do racismo usando a poesia como recurso para ser ouvida.

Além de dois livros lançados - Fragmentos Dispersos e Negra Nua e Crua -, ela é integrante do coletivo Poetas Ambulantes, um projeto que leva a poesia para o transporte público de São Paulo, e também está à frente do Slam das Minas, uma batalha de poesias voltada somente para mulheres.

Em entrevista ao Bar de Batom, ela contou como se prepara para essas batalhas, falou do machismo ainda presente nos saraus e também revelou o que ainda é um desafio para ela. Confira a conversa completa:

De que maneiras você acha que a arte, por meio de trabalhos como o seu, contribui no processo de empoderamento feminino?

Eu fico sabendo da repercussão através do retorno das pessoas, e imagino que esse feedback não é nem metade do que realmente estou atingindo. Percebo que muita gente se sente contemplada pelo meu trabalho, e, pela dificuldade que as mulheres têm de se expressar, eu acabo ocupando um espaço onde falo coisas que muitas gostariam de dizer.

Como ele impacta a vida das pessoas?

Meninos também me falam que mudaram a forma de pensar sobre as mulheres por causa do meu trabalho, e isso é muito bom. Com o meu trabalho eu vejo que ajudo pessoas com depressão ou meninas que correm atrás das raízes, por meio de uma transição capilar, por exemplo. É muita responsabilidade porque sou responsável muitas vezes por mudar alguém até mesmo fisicamente. A palavra é sem dúvida uma ferramenta muito potente.

Qual o maior desafio para decorar tantos textos?

Na verdade não tem muito segredo, é prática mesmo. Quando comecei, sempre ficava nervosa e acabava levando papel, mas ele me entregava porque eu tremia demais, então fazia barulho às vezes. Decidi que tinha que decorar para parar de passar vergonha. Hoje costumo gravar tudo que escrevo e coloco para ouvir durante as minhas atividades. Mas ainda acontece de dar uns brancos, e isso surpreende as pessoas, porque elas pensam que eu nunca erro.

O que você faz para falar tão bem? Existem técnicas mais específicas que você utiliza?

Existir, existem, mas eu não utilizo (risos)! Eu só faço aula de canto, que ajuda com a respiração e com a imposição da voz, para saber até onde ela pode chegar. Sou comunicativa, então sempre tive facilidade com a fala, eu era a menina que apresentava os trabalhos na escola (risos).

E como faz para ficar focada e melhorar suas performances?

Cada um vai criando uma técnica pessoal para não se perder, porque às vezes pequenas coisas podem tirar você do eixo - um gesto, um olhar. Mas o que me ajudou muito foi o Poetas Ambulantes, que faço há cinco anos, que leva a poesia para o transporte público de São Paulo. Então, andar no ônibus e no metrô é muito diferente, tem muito barulho: pessoas conversando, carro mexendo - vários processos que ajudam a encontrar minha voz. Uma outra opção é procurar um fonoaudiólogo, algo que ajuda bastante na dicção.

Mel Duarte - Poetas Ambulantes

E quais são as maiores conquistas, até agora, do Poetas Ambulantes?

Nós fazemos esse trabalho porque amamos, acreditamos que a poesia tem que estar em movimento. No transporte público, você invade um espaço onde muita gente não lembra que a poesia existe ou que acha que é chato, e, de repente, você instaura outra energia naquele lugar. O retorno é muito verdadeiro - você consegue identificar quem gostou ou não apenas pelo olhar. Muitas pessoas voltam depois para contar curiosidades que aconteceram no momento, mensagens legais, porque na hora não temos noção de como tocamos cada um.

Recentemente conseguimos o apoio do VAI (Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais), que ajuda financeiramente atividades artístico-culturais, principalmente de jovens de baixa renda. Então começamos a registrar todas as saídas para transformar em um documentário, onde contaremos as histórias das pessoas e retomaremos algumas conversas. Serão seis meses de captação e pretendemos lançar o resultado em 2018.

Como é o mercado na sua área no Brasil? A quantidade de mulheres nesse meio ainda é pequena?

Tenho percebido um crescimento gigantesco de mulheres publicando seus textos e apresentando. Estou há 10 anos fazendo isso, então sempre me senti muito sozinha, mas entendo que é um processo lento. Geralmente a mulher escreve muito, mas não fala - são mais caladas porque acabam sendo mais criticadas e mais observadas, então é muito complexo para se expor realmente. Mas eu entendi que se não mostrasse e apresentasse o meu trabalho, ele não andaria, então decidi sobreviver mesmo disso há um ano. Antes, eu fazia em paralelo, mas cheguei à conclusão de que, se eu quisesse que a minha carreira desse certo, eu precisaria me dedicar.

A aposta deu certo?

Foi depois da minha participação na Flip (Festa Literária de Paraty) de 2016 que a minha vida mudou, tenho ido a lugares que nunca pensei que a poesia iria. Hoje, eu faço apresentações em eventos e participo de algumas propagandas, como a da Natura deste ano ou a da Fundação Telefônica, e são coisas muito  bacanas porque eu tenho liberdade para falar o que eu quero, então uso o meu texto mesmo. Temos que saber aproveitar o mercado e, muitas vezes, através da publicidade, dar visibilidade ao nosso trabalho.

Você busca inspiração principalmente em outros autores e poetas para continuar fazendo o seu trabalho? Ou a maior parte sai da sua cabeça, do que você está sentindo e vivendo?

Eu amo a Elisa Lucinda, ela é inspiradora, porra louca, tem uma energia positiva. Gosto da escrita dela, então eu a tenho como referência, mas não vou escrever como ela ou como outros escritores e poetas. Escrevo o que eu sinto e uso isso muitas vezes como uma válvula de escape mesmo. Tem casos que me pedem para falar de um determinado assunto que nunca falei antes, então acabo saindo da minha zona de conforto, mas isso é bom porque me desperta para refletir sobre outros assuntos também.

Quais mulheres são sua maior fonte de inspiração?

Além da minha mãe, que é incrível, maravilhosa, existem várias. A Elisa Lucinda é muito necessária, ela tira as pessoas do lugar comum, usa muito a ironia. Gosto disso, acho o máximo, mas ainda não consigo usar nos meus textos (risos). A Elza Soares, eu cresci ouvindo minha mãe falar dela, a Tássia Reis, uma rapper incrível, gosto como ela escreve e como trabalha a música e o hip hop.

Na Literatura, tem a Débora Garcia, poetisa negra, a Elizandra Souza, primeira preta de dread que eu vi fazendo poesia - quando cheguei ela já estava há muito tempo, uma parceira de caminhada. Também admiro a Michele Santos, do Grajaú, que já tem dois livros lançados, e a Luisa Borba, uma jovem de 20 anos, que lançou um livro aos 17 - um verdadeiro prodígio. Enfim, são mulheres com um trampo incrível e que não sei por que não têm a mesma visibilidade.

Mel Duarte - Poesia

O que ainda é um desafio para você com a poesia, saraus e slams? Em que pontos gostaria de evoluir?

Nesse momento, o maior desafio é saber organizar o tempo. Durmo trabalhando e acordo trabalhando, mas precisamos descansar - se minha mente não descansa não consigo escrever. Eu também quero me desafiar para além da poesia, mas ainda não sei para onde ir, não consegui me achar nesse aspecto, mas tenho vontade de lançar um livro com outro viés, trazer ironia para o texto, porque sou irônica na vida, mas não consigo colocar no texto. Encontrar as palavras certas também é sempre um grande desafio. E sobreviver disso também.

Estou numa fase muito legal e importante, mas me preocupa para onde vamos, até quando terei espaço para falar o que eu quero, porque os saraus sofrem muita repressão, então eu tenho medo do que pode acontecer. Para onde vai e como vamos manter essa juventude ativa com o país do jeito que está.

O machismo é algo ainda muito presente nos saraus e slams?

Nossa, muito! Quando você está em um espaço cultural e democrático, parece que isso não acontece. Mas tem muita coisa errada acontecendo em todos os lugares e nos saraus e slams não é diferente. Hoje estamos mais fortalecidas, temos grupos, conversamos quando acontece alguma coisa, e os caras não contam com isso, então muitas máscaras de machistas que pagam de poetas fofos começam a cair. Eu fico de cara com a quantidade de homens que chegam nesses espaços com textos lindos, contando experiências bacanas, e quando saem dali descobrimos que batem na namorada. Mas não deixamos quieto, estão rolando intervenções onde esses caras estão, e proibimos de voltar mesmo.

Qual o objetivo do Slam das Minas?

No início era garantir uma vaga feminina no campeonato nacional de poesia, porque apenas homens que chegavam lá. Depois que começamos, vimos que é muito mais do que isso - se tornou algo muito maior, nos fortalecemos mesmo. Lá nós falamos sobre coisas delicadas, dores, amores, vamos formando outros coletivos a partir dali também. Por exemplo, muitas mães solo vão encontrar no slam um espaço para serem acolhidas.

Mel Duarte - Slam das Minas

Onde querem chegar com esse trabalho?

Não temos pretensão de chegar a um ponto específico, mas temos que ficar atentas porque estamos num momento em que estamos muito nervosas e indignadas, mas precisamos de mais de amor, carinho. Nós queremos que o movimento aumente para mostrar sua arte e poder. O Slam das Minas, que começou no Distrito Federal, já chegou na Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Nós já fomos para Belém do Pará porque já existem meninas fazendo slam lá - um lugar onde fazer isso é muito mais difícil que em São Paulo.

Como você acha que as feiras literárias que acontecem na periferia poderiam ter mais visibilidade?

Através desses coletivos, nós estamos conseguindo isso. A ideia é realmente levar os conteúdos e tudo o que acontece na periferia para o restante do país.

Você já lançou dois livros. Pretende lançar mais? Já tem um planejamento para o próximo?

Eu pretendo lançar mais um livro de poesia em 2018 e quero que seja bem diferente do último. Estou testando outras formas de escrever e experimentando novos formatos. Também estou trabalhando coisas em mim para conseguir entender para onde quero ir. Em paralelo, eu trabalho com ONGs e escolas, ajudando meninas. Então são muitas coisas, mas seguro um pouco tudo que quero fazer porque é preciso fazer tudo com calma e de forma bem pensada.

Por Natália Lins

Fotos: Reprodução/Facebook