Entrevista com a ilustradora Carol Rossetti

Seu trabalho engajado já ganhou muitos fãs ao redor do mundo

Publicado em 11/07/2017
Entrevista com a ilustradora Carol Rossetti

Tudo começou de uma maneira despretensiosa. Para praticar sua técnica com lápis de cor e dividir mensagens positivas com os amigos, a mineira Carol Rossetti passou a fazer ilustrações e textos simples, retratando mulheres em situações diversas e que fogem de padrões. 

Mas a linguagem fácil e convidativa - com imagens e palavras - para reflexões de questões maiores, como feminismo e igualdade de gênero, fizeram o trabalho da designer quebrar fronteiras e abrir a cabeça de muitas pessoas sobre esses temas, inclusive de crianças e até de anunciantes de cerveja - produto fortemente caracterizado por publicidade machista.

Hoje, ilustrações de Carol que fazem parte do projeto Mulheres foram traduzidas para mais de 15 idiomas e viraram livro. Outro sucesso são as tirinhas Cores, uma série de quadrinhos para crianças, que mantém a característica da quebra de padrões com personagens de contextos diferentes dos sempre vistos, introduzindo ainda na infância questionamentos sobre as imposições da sociedade machista.

Mais um destaque de seu trabalho que não passa despercebido foi o convite da Skol para que ela fosse uma das oito ilustradoras da campanha da marca ao Dia Internacional da Mulher desse ano, para refazer anúncios machistas da empresa sob um viés empoderador.

Em entrevista ao Bar de Batom, a designer contou mais sobre todos esses projetos e mostrou como a arte pode contribuir com a quebra de padrões e o próprio feminismo. Confira:

O seu trabalho Mulheres começou de maneira despretensiosa e você usou um viés com o qual se identificava para fazê-lo. Para você, compor essas ilustrações foi algo libertador?

Foi muito libertador e algo com o qual aprendi muito no seu decorrer. Tive a oportunidade de conversar com muitas mulheres, de contextos muito diferentes dos meus. E entender melhor as demandas distintas que mulheres diferentes têm dentro do feminismo me ajudou a entender melhor essa interseccionalidade e, por causa disso, eu acho que foi muito libertador para mim, porque eu saí do meu mundo. 

Nesse caso, uma característica muito legal é que você usa uma linguagem universal para conversar com todos os públicos. Você acha que essa aproximação com as pessoas foi a característica responsável por toda repercussão que o Mulheres teve?

Essa repercussão toda se deu por conta de muitos fatores. Um parâmetro disso, sim, é que eu usei uma linguagem muito simples, com textos muito rápidos, diretos e fáceis para qualquer pessoa, sem jargões do feminismo e de outros movimentos sociais. Então eu consegui dialogar com pessoas de fora do movimento, que foi o objetivo desde o princípio. Tem ainda o fato de ser um texto com ilustração - a imagem é uma coisa muito forte e chamativa.

Comecei a falar disso em um momento que essa conversa sobre o feminismo estava ficando um pouco mais aquecida, mais pessoas estavam se dispondo a conversar, a entender. Então teve tudo isso, mas teve um componente um pouco misterioso, nas próprias redes sociais, em que você não consegue prever o que vai ser viral e o que não vai. 

O tom de voz das ilustrações é bastante inclusivo. Você acredita que isso ajudou também?

Eu sempre fiz o possível para dar um tom muito acolhedor ao invés de agressivo, que fizesse com que as pessoas que passam por aquelas situações se sentissem abraçadas e, para aquelas que efetuam esse tipo de ação, também se sentissem convidadas a rever seus próprios pensamentos e atitudes sem ter alguém apontando o dedo.

Entrevista com a ilustradora Carol Rossetti

E o Mulheres também foi traduzido para outros idiomas. Como foi a repercussão?

Quando comecei a traduzir para o inglês foi quando, digamos, perdi o controle (risos). Comecei a postar algumas em inglês, e semanas depois uma moça de Israel entrou em contato comigo pedindo para traduzir para hebraico, e ela mesma começou a fazer as traduções e a divulgar por lá. Depois disso, várias pessoas de diversos países vieram falar comigo também se prontificando a traduzir. Ninguém era tradutor, eram todos amadores, mas todo mundo na boa vontade de fazer isso circular. Então, informalmente, algumas ilustrações foram traduzidas para mais de 15 idiomas. Foi muito legal, acho que isso também fez com que o trabalho se tornasse viral.

Você acha que esse toque acolhedor da linguagem, da imagem, é importante para ajudar a quebrar a impressão negativa que algumas pessoas têm do feminismo?

Em parte, a imagem negativa do movimento vai existir sempre, porque existe uma reação contrária de quem acredita que esse não seja o caminho, que essa não seja a ideia, e existe uma reação também movida por uma certa ignorância. A questão é que o feminismo toca em assuntos e privilégios que fazem com que as pessoas inevitavelmente tenham que confrontar as próprias atitudes que contribuem para um sistema de opressão maior. Isso exige até uma certa humildade eu diria, porque não é um processo fácil - para mim não foi.

Ninguém quer se afirmar machista ou racista, e talvez a gente não seja, mas isso não impede que a gente não faça ou não diga coisas que são racistas ou machistas. Eu acho que o medo do feminismo vem disso. E claro que a informação, uma linguagem acolhedora e uma arte que faça as pessoas se sentirem confortáveis - que crie um espaço seguro para pessoas leigas se informarem, perguntarem e dialogarem abertamente - são fatores que estimulam o diálogo com pessoas de fora. 

Na descrição do projeto, você diz que o Mulheres é voltado para todo mundo, e não apenas para garotas. Você vê que esse protagonismo da personagem feminina tem crescido no meio editorial?

Tem crescido porque era muito baixo, e agora eu vejo nós, mulheres, tendo a chance de ver seu trabalho ascender na editora ou mesmo na internet. Muitos homens também estão ficando mais atentos a essa questão de representação, exatamente porque o diálogo está evoluindo e as mulheres estão ocupando esse espaço enquanto público consumidor e produtor de conteúdo.

Você se sente mais confortável dirigindo suas ilustrações mais para o público feminino?

No meu caso, foi uma escolha em parte muito pessoal, porque eu gosto de desenhar mulheres e de conversar diretamente com mulheres. Eu falo que é para todo mundo, mas é primeiramente para as mulheres. Quero que elas se identifiquem, que vejam as imagens e que aquilo tenha um efeito nelas. Mas as imagens têm um efeito nos homens também, e eu acho importantíssimo que eles vejam e se abram para se identificar com personagens femininas ou para conhecer uma realidade que não é a deles dependendo da situação.

Entrevista com a ilustradora Carol Rossetti

Em algum momento específico você notou que aquilo que estava fazendo despretensiosamente estava tocando as pessoas?

Eu percebi isso através das mensagens que eu passei a receber de gente dividindo vivências, experiências, coisas extremamente íntimas. Alguns ainda me agradecendo, outros sugerindo. E eu vi muita gente que não conhecia o feminismo, que não se afirmava feminista e tinha medo da palavra, e que hoje se diz feminista e que foi introduzida ao movimento através do meu trabalho. Isso é extremamente gratificante.

Já no Cores você também aborda empoderamento e quebra de tabus, mas para crianças. Muitos trabalhos voltados para o público infantil vêm sendo produzidos com essas mesmas abordagens, introduzindo também o tema do feminismo desde cedo. Como você vê isso?

Meu objetivo foi justamente esse, porque o Mulheres tem uma linguagem bem simples, só que é um projeto para adultos, que trata de temáticas bem pesadas. Muita gente falou que eu deveria tentar fazer alguma coisa para criança também, e foi assim que surgiu o Cores. Nós falamos muito na desconstrução que precisamos ter enquanto adultos que cresceram em uma sociedade que tem valores inerentes de preconceito, mas temos falado pouco sobre a construção desse pessoal que vem chegando, dos futuros adultos. E temos que tentar conversar com as crianças para mudar essa nossa realidade já de um princípio, sem também deixar estragar para depois ter que consertar (risos). 

Entrevista com a ilustradora Carol Rossetti

Você foi uma das ilustradoras convidadas pela Skol na campanha do Dia da Mulher desse ano para refazer anúncios machistas da marca. O que você achou da iniciativa da empresa?

Achei ótimo. Essa temática e as mulheres artistas têm que ocupar lugares que até então eram privilégio dos homens e de valores opostos. Então é bom que a empresa se abra para isso. Os dois pôsteres foram baseados em pôsteres antigos da Skol que eram bem machistas, que objetificavam muito. E o que eu quis foi subverter isso, colocar a mulher enquanto o agente ativo, que estava ali aproveitando a cerveja. Ela não estava ali como objeto de decoração ou para servir alguém. Não estava servindo ou servindo o corpo. Ela estava aproveitando, tomando a cerveja e não sendo um objeto cênico. Eu gostei bastante da experiência.

Entrevista com a ilustradora Carol Rossetti
Entrevista com a ilustradora Carol Rossetti

Você acha que estamos no caminho certo para chegar ao fim da desigualdade de gênero?

Estamos vivendo um momento forte reacionário, conservador, e se a reação está sendo forte isso significa que a ação foi forte também. As pessoas estão conversando mais sobre isso e eu gosto que agora os posicionamentos são mais explícitos. Eu acho que há uns 10 anos as pessoas falavam muito “não sou machista, mas...”, “não sou preconceituoso, mas...”, e não é que não falem, mas hoje eu vejo pessoas falando “não, eu acredito na desigualdade de gênero”, então as coisas estão mais explícitas e isso é positivo porque nos enganamos menos e conseguimos entender melhor o que está acontecendo. Quando as coisas ficam menos subjetivas, acho que é mais fácil de entender claramente o que se passa, e tomar partido e lutar pelo que você acredita que seja o certo. 

Mas, ao mesmo tempo, é de certa forma triste ver que ainda precisamos ir às ruas, como fomos lá no século XIX, para pedir que nossos direitos sejam reconhecidos?

É bem triste em vários aspectos. Outro dia eu vi que tinha um filme alemão de 1924 que tratava das consequências de um aborto não legalizado. E quando você pensa “puxa, estamos em 2017 e ainda falando sobre esse tema, é isso mesmo?” é verdade que dá um desânimo. Mas temos alcançado conquistas, com certeza. Elas não acontecem na velocidade que queremos e nem no ritmo que merecemos, mas a luta por direitos é isso. Inclusive entramos nela sabendo que algumas coisas vamos perder ou que vamos ganhar depois de muito tempo. Não podemos entrar na luta pensando que só vai valer a pena se colhermos os frutos dela rápido, porque geralmente conquistas por direitos não são lutas imediatas se vermos historicamente. Existe sempre o risco de um retrocesso, o que é ruim, por isso temos que continuar, para também não termos retrocessos. 

E como você acha que a arte pode contribuir com a luta feminista?

A arte alcança pessoas de uma forma que às vezes um ativismo clássico ou um texto acadêmico não consegue. Então, quando pensamos em Simone de Beauvoir, legal, mas quantas pessoas realmente tiveram acesso ao livro? Quantas conseguiram ler? E quantas que leram e entenderam? Então a arte não precisa ser ativista, mas ela tem um potencial muito interessante para ser ativista também - é um alcance diferente. Tem espaço para você conquistar coisas lutando no Congresso, fazendo passeatas, greves, escrevendo livros, fazendo ilustrações, teatro, dança, cinema. Acho que tem espaço para todo mundo, e todo mundo que se dispuser a lutar. Cada um vai encontrar a sua forma.

As pessoas estão mais engajadas?

Tenho visto gente muito jovem engajada, fazendo coletivo feminista na escola, uma coisa completamente impensável na época em que eu estava nessa fase, quando ninguém falava. Para nós, o feminismo era uma coisa que tinha acontecido nos anos 20 para a gente poder votar. Então eu vejo que está chegando um pessoal nervoso aí. Tem gente muito disposta a lutar e isso vai deixar alguns com muito medo. Eles vão ficar desesperados - e tem mais é que ficar mesmo, porque podemos até não vencer essa luta ou não vencer tão rápido, mas não vamos morrer sem lutar.

Por Luciana Faria

Imagens: Carol Vianna/Divulgação/Carol Rossetti/Reprodução