Educação: Já falou com o seu menino hoje?

Especialistas lançam curso, livro e perfil para debater igualdade de gênero

Publicado em 22/03/2018
administradoras do canal 'já falou com o seu menino hoje?'

Toda semana, aqui no Bar de Batom, publicamos dados sobre violênciaassédio sexual, diferença salarial entre gêneros e, consequentemente, apontamos os holofotes aos movimentos que estão combatendo essa realidade. Na maioria das vezes, a conversa permanece no campo dos adultos, que são carregados de crenças e valores difíceis de serem desconstruídos. Um dos exemplos é o machismo e a noção de poder, os quais fazem parte da identidade masculina, e que deveriam começar a ser transformados ainda na infância. 

É esse o foco do trabalho da psicóloga infantil Nathália Borges, da escritora Julieta Jacob e da educadora especialista em educação sexual Carolina Arcari, que comandam o projeto "Já falou com o seu menino hoje?". Por meio do Facebook e Instagram, o trio incentiva os pais a refletir sobre a educação de garotos, a fim de garantir uma sociedade menos violenta, mais gentil e igualitária. Contudo, as redes sociais são só a ponta do iceberg. As especialistas ainda assinam livros e cursos para trabalhar o empoderamento de meninas e o pensamento masculino positivo.  Em entrevista ao Bar de Batom, Nathália explica como todo o projeto funciona. 

Já falou?

Cheio de cores, com desenhos lúdicos e linguagem direta, "Já Falou com o seu menino hoje?" é um convite à desconstrução de pensamentos machistas. Juntas, as contas no Instagram e Facebook acumulam aproximadamente 300 mil seguidores. 

Um dos posts diz que os meninos podem chorar, e está tudo certo. Outro avisa para os familiares abolirem frases clássicas: "Macho que é macho...", "Mulher de amigo meu é homem" e "Isso é coisa de mulherzinha". E existem outros que incentivam a igualdade de gênero e o respeito: "Lugar de cozinha também é de menino", "Que não é demérito perder para uma menina", "Beijo roubado não é romântico é abuso".

"São posts leves, que têm como o objetivo provocar reflexões nos adultos sobre a educação dos meninos. Ajuda a  empoderar os pequenos, incentivando o desenvolvimento da sensibilidade, empatia, da capacidade de se expressar e do respeito aos direitos humanos. Só assim podemos ter uma sociedade menos violenta e com possibilidades iguais para meninos e meninas", explica Nathália.

Iniciativa comprovada na prática

A página "Já Falou com o seu menino hoje?" é fruto da experiência real de uma escola modelo criada há 10 anos: a Escola de Ser, do Instituto Cores. O colégio privado, sem fins lucrativos, está localizado em Rio Verde, interior de Goiás, e atende meninas e meninos da faixa etária de 6 a 14 anos. 

A Escola de Ser tem uma filosofia democrática e convida seus alunos a participar ativamente do processo de aprendizagem: todos decidem os temas das aulas por meio de assembleias, lancham, limpam e cuidam dos ambientes escolares juntos. A instituição -  que possui educadores de diversos lugares e formações - já acumulou 12 prêmios na área acadêmica, entre eles o título de pioneira pela UNICEF. 

Apesar do sucesso do modelo de educação, o assunto de "igualdade de gênero" se tornou um embate. "Quando a gente começou a trabalhar com os garotos sobre combate da violência de gênero e sexual, a resistência foi enorme. Por isso, a gente precisou repensar a metodologia e ver que essa discussão tem que começar muito antes, ainda na infância", explica Nathália, que também foi coordenadora na Escola de Ser.

Princesas de capa, heróis de avental 

Além das redes sociais, a experiência da Escola de Ser deu origem a um curso online: PRINCESAS DE CAPA, HERÓIS DE AVENTAL: o livro das possibilidades, desenvolvido por Nathália e a educadora Carolina Arcari. O material tem como proposta trazer ferramentas para a educação de meninos e meninas, dentro de igualdade de possibilidades e oportunidades.

Por isso, traz propostas práticas para o enfrentamento do machismo, com foco no desenvolvimento de novas masculinidades, além de ferramentas para o empoderamento de meninas e, consequentemente, na construção de uma sociedade menos violenta. "É um material bem versátil, para pais, professores e instituições com pré-disposição para o debate de igualdade de gênero. Dessa forma, pode ser usado tanto na educação formal, casa e recurso terapêutico", explica. 

Nathália comenta que algumas questões nascem na infância e culminam na desigualdade de poder quando meninos e meninas se tornam adultos, como o incentivo à brincadeiras de gênero. "As meninas são incentivadas a brincar de boneca, comidinha, casinha. Já os meninos, brincam com objetos que estimulam o raciocínio lógico, como carrinhos e games. Mas, lá na frente, essas diferenças impactam na escolha de profissões. As mulheres escolham as áreas de cuidado, enquanto os homens de exatas. E, na grande maioria das vezes, as áreas escolhidas pelos homens são mais bem remuneradas, configurando uma desigualdade de poder", acrescenta.

Para a psicóloga, a criação das meninas é constituída com um padrão de feminilidade baseado na submissão e na abdicação de si, enquanto os meninos são criados com base na dominação, poder e desconhecimento de si. "Eles vão se desenvolvendo nessa desigualdade, que irá se manifestar em atos de violências no futuro", analisa a psicóloga.  

Todo mundo sai ganhando

A atenção à educação - tanto de meninas, como do meninos - é um fator poderosíssimo de modificação social. Isso porque, com as ferramentas certas, é possível diminuir a violência, o abuso sexual, entre outros tantos problemas causados pela falta de igualdade de direitos.

Trabalhar com o empoderamento de meninas fará com que, no futuro, elas se tornem mulheres com conhecimento de si, da sociedade e entendem como se encontrar no mundo. Já os meninos ganham mais empatia, habilidades de se expressar e garantem a sua própria saúde mental. 

"A gente tem dados tristes sobre suicídio e depressão masculina. Isso devido à falta de habilidade de lidar com os sentimentos e se expressar. Eles não podem se abrir ou chorar, porque na infância os pais diziam: 'não chora, porque isso não é coisa de macho' ou 'aja como homem'. Além disso, acabam perdendo laços com melhores amigos homens, porque na adolescência a sua sexualidade é questionada e julgada Você tem noção da quantidade de violência que tem nessas frases e pensamentos?". 

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação