Cristal Muniz inspira com o blog 'Um ano sem lixo'

Ela deu dicas ao Bar de como produzir demaquilante, tônico e sérum em casa

Publicado em 30/10/2017
Cristal Muniz

Já imaginou quanto lixo você produz todos os dias, desde o momento do café da amanhã até o jantar? Dados do estudo Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), mostram que só um habitante da cidade de São Paulo gera 1,39 kg por dia. Pode parecer pouco, mas em um mês esse valor sobe para mais de 40 kg. O cenário fica ainda mais apocalíptico quando multiplicado por uma população de milhões de pessoas.

Inspirada numa vida capaz de gerar o mínimo de impacto ambiental e obter o máximo de autonomia possível, a designer Cristal Muniz (25) decidiu parar de produzir resíduos. E toda a experiência desse novo estilo de vida ela conta em seu blog Um ano sem lixo.

Cristal aboliu embalagens, comida industrializada e produtos de beleza comuns. Hoje, ela produz tudo o que precisa em casa. Ao invés de frequentar supermercados, ela opta por lojas a granel e compra apenas o que vai consumir, para evitar desperdício.  

Cosméticos foram substituídos por opções seguras e naturais, feitas por ela. "É possível fazer diversos produtos de beleza, como demaquilante, tônico, máscara de argila, sérum, entre outros. E o melhor, gastando pouco e de forma rápida", afirma a blogueira que já participou de uma edição do TEDx e ministra palestras e workshops para compartilhar sua experiência.

Em entrevista ao Bar de Batom, Cristal Muniz conta como funciona a sua filosofia de vida, como as crenças feministas resgatam a valorização de sua beleza natural e dá dicas para quem deseja começar, aos poucos, a reduzir a quantidade de lixo produzido. 

Confira a entrevista completa:

Como nasceu o blog?

Foi no final de 2014, porque eu queria ficar um ano sem lixo, ou seja, até o final de 2015. Quis tentar o desafio depois de ler Lauren Singer, do blog Trash is for Tossers, que estava sem produzir lixo fazia dois anos. Pensei "por que não?" e comecei a pesquisar se várias coisas que ela sugeria no blog seriam possíveis aqui no Brasil. Aos poucos eu pegava um problema e tentava resolver: conforme os produtos iam acabando, eu procurava a receita e os produzia. Também usei tudo o que eu já tinha e não joguei nada fora, pois não fazia sentido.

Foi uma grande tomada de consciência!

É, quando a gente tem essa tomada de consciência mais sustentável e quanto mais se pesquisa, mais você se assusta. Tem vezes que eu me sinto muito derrotada, porque eu penso: "não adianta lutar contra as coisas que parecem nunca se vencer". É só ver as últimas coisas que o [presidente Michel] Temer tentou aprovar, como a lei que beneficia o trabalho escravo ou a que libera a mineração em áreas de preservação permanente. Por isso é necessário muita gente lutando nesse sentido. 

As pessoas estão se sentindo esgotadas com tantos problemas políticos e sociais. E às vezes não conseguem tomar uma atitude sozinhas, como você havia comentado no blog: "Lutar contra as suas coisas e as coisas do mundo cansa"...

É, em alguns momentos não conseguimos resolver tudo sozinhos, mas é possível sim fazermos ações individuais e enquanto sociedade. O ano que vem teremos eleições e a política está totalmente ligada às questões ambientais. Não adianta ficarmos esperando que as leis aconteçam e que sejam fiscalizadas, nós precisamos votar em pessoas que defendam os nossos valores e fiscalizar nossos eleitos. E também praticar ações simples, como implantar a separação de lixo no condomínio. Se não for pela responsabilidade ambiental, que seja pelo benefício financeiro, como vender os materiais reciclados e reverter o dinheiro para melhorias no prédio. Para isso, as pessoas precisam se unir.

Como você tem sentido o interesse das pessoas no movimento lixo zero?

O termo "lixo zero" tem se popularizado no Brasil e isso fez um grande número de pessoas chegarem ao meu conteúdo. Elas estão tendo cada vez mais interesse, é só observar pela quantidade de marcas de cosméticos com apelo sustentável que estão sendo criadas. É claro que essa é uma percepção da classe média, que já consumiu tudo o que podia e percebeu que não precisa viver com tanto consumo. O mesmo não acontece com as classes C, D e E, que não conseguiram chegar a esse ponto para negar a compra de determinados produtos. Principalmente no Brasil, que tem uma desigualdade social imensa, não podemos nos esquecer disso nunca.

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E quais foram as mudanças que ocorreram na sua vida depois que passou a viver assim? 

Hoje eu gasto muito menos dinheiro do que eu gastava antes. Todo mês eu gastava 40 reais com produtos de limpeza e, hoje, o valor total é 10. Bicarbonato de sódio, que eu uso para fazer diversos produtos, custa nove reais e dura quatro meses. Comprar a granel é outro exemplo: você precisa de 100 gramas de determinado alimento, dessa forma você utiliza tudo e não desperdiça.

Quais foram os benefícios obtidos com os produtos feitos em casa?

Desde que eu comecei o projeto me alimento de forma muito mais saudável, pois deixei de comer o que vem em caixas, ou seja, industrializados, e passei a fazer quase tudo em casa. Isso diminuiu minhas espinhas e não me sinto mais tão inchada. Por ter eliminado os laticínios e parado de usar produtos químicos de limpeza, ainda acabou com as minhas crises de rinite. Também sinto diferença quando uso sabonete comum, a minha pele fica repuxada. A minha saúde mudou como um todo. 

Como você produz os seus cosméticos naturais?

Faço pasta de dente com óleo de coco, bicarbonato de sódio e essência de hortelã. Produzo demaquilante com uma colher de gel de aloe vera industrializado e a mesma quantidade de óleo vegetal - dura um mês sem estragar. Também faço tônico com 100 ml de água e duas colheres de sopa de vinagre de maçã. Máscara de argila com material em pó misturado com água; sérum com óleo vegetal de amêndoas e jojoba; e óleos essenciais de lavanda e melaleuca - ótimos para espinhas.

É uma verdadeira lição de autonomia...

Acho muito importante, porque desde pequenos somos educados na frente da TV com propagandas da indústria. Então a gente acredita que existe pele oleosa, mista e seca. Mas é uma mentira, existe pele saudável e não saudável. Quando você começa a fazer os seus próprios produtos, passa a entender o seu corpo e a própria pele, percebe quanta balela te colocam na cabeça. É muito importante nos desligarmos dessas questões comerciais e perceber o que de fato precisamos dentro da nossa casa e em nosso corpo.

O seu discurso começa a convergir também com o feminismo, não é mesmo? 

Quando comecei a produzir cosméticos e descobrir a minha beleza natural, passei a praticar a beleza natural feminista. E foi libertador, pois não há amarras sociais. Eu tive muito problema com os meus cabelos quando era mais jovem, porque queria que meus fios ficassem lisos como os das minhas amigas. Sofri muito para aceitar que uma onda não faz dele horrível. Hoje, eu penso que devemos aceitar os nossos cabelos do jeito que são, com as suas texturas. Esses milagres que mudam a estrutura do fio não existem de forma natural. Tirar rugas? Também não. Você vai envelhecer e ter rugas, a alternativa é hidratar a pele e amenizar as linhas.

Geralmente para fazer tudo isso requer tempo, como você lida com a sua rotina?  

Eu basicamente compro comida no sábado na loja a granel, onde levo um saquinho de feira. Eu sempre tenho um kit pronto na bolsa, com potinhos e saquinhos, para não gerar lixo. Quando vou comer um lanche, levo guardanapos de pano. Os produtos de limpeza são produzidos em cinco minutos, e duram meses. Como eu trabalho em casa, isso facilita, mas quando trabalhava fora, me organizava para fazer tudo à noite ou no sábado.

Para pessoas com rotina atribulada, mas que gostariam de começar a reduzir a quantidade de lixo produzida durante o dia, qual seria o seu conselho?

Primeiro é montar um kit e mantê-lo sempre na bolsa, principalmente para quem come muito fora. As embalagens não serão recicladas e é um tipo de lixo muito ruim como fator ambiental. Use então um copinho, talheres de plástico mais firmes e guardanapos de pano para segurar alimentos. Essas três coisas já ajudam a reduzir bastante a quantidade de lixo. Eu sempre falo também da composteira, que é super fácil de fazer. 

Por Mayhara Nogueira

Foto: Pinterest