Conheça a jovem que criou o isopor biodegradável aos 16

Sayuri Magnabosco contou ao Bar como essa descoberta vem fazendo a diferença

Publicado em 31/08/2017
Conheça a jovem que inventou o isopor biodegradável

Jovem, determinada, cientista, mulher. Assim é Sayuri Magnabosco, um dos grandes nomes a despontar na ciência brasileira e que vem inspirando toda uma geração de jovens a acreditar que ser cientista não é coisa de filme de ficção - e, também, que ser uma cientista é prontamente possível.

Curiosa e amante das ciências, a jovem de Curitiba começou a se descobrir na área ajudando a mãe a guardar as compras de supermercado. Mais do que alimentos, ela viu entre aquelas mercadorias uma grande quantidade de lixo que seria descartada depois. E foi aí que veio o estalo - que a levaria para o mundo dos laboratórios ainda no segundo ano do ensino médio, aos 15 anos: por que não desenvolver embalagens biodegradáveis para aqueles produtos?

Mais especificamente, a ideia da estudante foi pensar em uma alternativa para substituir o isopor, por todo impacto ambiental que o material causa. Um dos maiores vilões do meio ambiente, ele leva no mínimo 150 anos para se decompor na natureza. Nos lixões, a peça também é um problema, porque forma uma manta sobre o solo que impede a decomposição dos resíduos orgânicos. Reciclar? Também não é viável, pelo baixo rendimento econômico que traria por ser um material leve.

Mas a problemática não apareceu sozinha. Decidido o que substituir, Sayuri já pensou pelo que: por bandejas feitas a partir do bagaço da cana. Para chegar a essa ideia, a estudante observou que somos os maiores produtores de cana-de-açúcar do mundo e, também, os maiores geradores de resíduos dessa plantação. O que isso significa? Que ali há uma fonte biodegradável imensa - do jeitinho que ela estava procurando. E mais: se usado o bagaço da cana, Sayuri ainda poderia ajudar as famílias que trabalham nessa indústria, que ganham salários baixíssimos, a complementar a renda. Pronto: estava feito o projeto de um produto que despontaria a garota para o mundo.

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"Meu trabalho surgiu como uma resposta a todos esses problemas. Usando o bagaço da cana como matéria-prima para minha embalagem, eu consegui agregar valor a um material que seria descartado, o que torna o produto 100% biodegradável, solucionando os problemas ambientais causados pelo isopor", contou a jovem ao Bar de Batom. "Além disso, por ter uma fácil fabricação e aplicação, minha embalagem surge como uma fonte alternativa de renda para os trabalhadores da cana, que podem fazê-la e vendê-la para complementar a renda familiar".

Embora a embalagem desenvolvida por Sayuri ainda não esteja sendo comercializada, já foi dada entrada no processo de patente e existem empresas interessadas. 

Mas o melhor de tudo é que essa ideia levou a jovem a enxergar toda sua capacidade - e a inspirar pessoas a perceber o quanto são capazes também. Pelo projeto da embalagem biodegradável, a garota já recebeu mais de 15 prêmios, participou de três feiras de ciências, representou o Brasil na conferência científica Youth Science Meeting, em Portugal, e foi uma das cinco estudantes de todo o mundo a ser nomeada uma Global Trailblazer pela Universidade de Harvard, o que a levou a passar uma semana participando de aulas em uma das melhores universidades do planeta.

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"Esse prêmio de Harvard também me deu a oportunidade de apresentar meu trabalho para 600 pessoas no Igniting Innovation Summit, o maior congresso de empreendedorismo social do mundo e que acontece anualmente na universidade", detalha Sayuri.

Ela ainda é uma das finalistas do 22º Prêmio CLAUDIA, a maior premiação feminina da América Latina, na categoria revelação. Isso sem contar as inúmeras palestras em escolas e grandes eventos que ela foi convidada para contar sua história inspiradora e empoderadora, como Lugar da Mulher é Aonde ela Quiser e o Pecha Kucha Night Curitiba.

Agora, aos 19 anos, ela está de malas prontas para estudar engenharia biomédica no Dartmouth College, nos Estados Unidos - a única faculdade do país a formar mais mulheres engenheiras do que homens. "Depois de formada, quero trabalhar na área de pesquisa em biotecnologia lá fora por uns anos para entender como a ciência é conduzida em outros lugares", conta Sayuri. 

Mas os planos não terminam no exterior. "Mais tarde, pretendo voltar ao Brasil para aplicar esse conhecimento científico dentro do Ministério da Ciência e Tecnologia para renovarmos a forma como a ciência é feita aqui no país e transformar o Brasil em uma potência e referência em tecnologia e desenvolvimento".

Capacidade sem distinção por gênero

Conheça a jovem que inventou o isopor biodegradável

Mas se depender de uma nova geração de cientistas para fazer do Brasil essa referência em tecnologia que Sayuri pretende, não seria errado dizer que a semente já está plantada. Por ter sido a primeira aluna do seu colégio a se destacar internacionalmente em feiras de ciência, hoje o local em que ela estudou em Curitiba vem estimulando vários jovens a seguir o mesmo caminho.

"Depois de mim, fazer pesquisa científica virou tradição na minha escola. Todo ano, temos cerca de 150 alunos interessados em conduzir pesquisa. Como esse interesse em ciência cresceu muito rápido, eu acabei virando monitora para ajudar meus colegas, os auxiliando em testes de laboratório, escrita de relatórios, e os preparando para competir em feiras de ciências", conta Sayuri. "Esse foi um trabalho muito gratificante. Poder passar meu conhecimento adiante e ver meus amigos chegarem cada vez mais longe com seus trabalhos é uma sensação indescritível". 

Ela ainda comenta que mulheres e jovens na ciência só tem a enriquecer a área. "A gente tem um senso comum de que o cientista é aquele cara bem mais velho, escondido no laboratório, fazendo uma pesquisa tão complexa que um ser humano normal não seria capaz de entender. Quando as pessoas começam a ver jovens e mulheres entrando no mundo da ciência, esse estereótipo é quebrado. Você passa a perceber que o cientista está ali, sentado do seu lado na sala de aula, vivendo no mesmo ambiente que o seu, e que, assim como você, ele ou ela é uma pessoa normal, com muito amor e dedicação para encontrar respostas para perguntas inusitadas", afirma. "Você prova que qualquer pessoa pode ser o que quiser. E é assim que criamos uma geração questionadora e empoderada de novos pesquisadores".

Por Luciana Faria

Fotos: Arquivo pessoal