Cervejaria Feminista homenageia ícones de luta e resistência

Conversamos com idealizadoras desse rótulo que brinda mulheres incríveis

Publicado em 12/01/2018
Cerveja Feminista da Maria Prestes e Conceição Evaristo

As mulheres vêm dominando a arte de fazer cerveja e aliando à prática uma brilhante atitude de trazer discussões e questionamentos relevantes para a sociedade. Como é o caso de um grupo mulheres do Rio de Janeiro que criou a Cervejaria Feminista. A iniciativa tem o objetivo de revelar histórias inspiradoras e provocar debates políticos sobre causas femininas - tudo isso acompanhado de uma boa cerveja.

Criado por Andreia Prestes, Maria Antônia Goulart, Maura Santiago, Elaine Barbosa e Clarissa Cogo, o rótulo, vendido somente em eventos, homenageia ícones da resistência política e cultural no Brasil. Os dois primeiros nomes que ganharam a bebida são Maria Prestes, que participou do movimento comunista brasileiro e é viúva de Luís Carlos Prestes, e a escritora Conceição Evaristo, um expoente da literatura negra no país.

A produção da cerveja é feita em parceria com duas microcervejarias, uma na cidade do Rio de Janeiro e outra em Nova Friburgo. Para criar o primeiro sabor da marca, Maria Prestes voltou ao passado. Ela resgatou na memória a melhor cerveja que havia experimentado na vida, que foi na antiga Tchecoslováquia, ao lado de Luís Carlos Prestes.

"Maria conta que o período que viveu em exílio, na década de 1970, foi o mais feliz de sua vida, pois finalmente reuniu, em uma mesma casa, todos os filhos e marido, que permaneceu anos escondido por conta da ditadura. Depois de pesquisa com sommelier e mestres cervejeiros, chegamos em uma receita que era equivalente a uma cerveja pilsen", explica Andreia Prestes, neta de Maria Prestes.

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O mesmo resgate de memórias aconteceu com Conceição Evaristo. Nascida em Belo Horizonte e radicada no Rio de Janeiro, a escritora é doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense e militante ativa do movimento negro. Suas obras abordam questões como o racismo brasileiro e a condição de ser mulher e negra no país. Entre os romances de maior destaque, está Ponciá Vicêncio, de 2013.

"Foram quatro encontros de muita conversa, apresentando cervejas e tentando perceber o que ela mais gostava. Foi um processo de muita aprendizagem e chegamos a uma cerveja de trigo, forte e bastante alcoólica, mas com um certo dulçor. O que é muito interessante para desconstruir esse estereótipo de que mulher gosta de cerveja fraquinha", afirma Andreia. A cerveja de Conceição Evaristo foi lançada em julho do ano passado, durante a Flip - Festa Literária Internacional de Paraty.

Rótulos promovem diálogos intergeracionais

Conceição Evaristo e Maria Prestes

A Cervejaria Feminista nasceu com um propósito maior do que simplesmente produzir e vender cerveja com rótulos históricos. Segundo Elaine Barbosa, o objetivo é aproveitar o espaço de socialização da bebida para falar de assunto sério. "Durante os eventos, por conta da cerveja, o público passou a conhecer melhor Maria Prestes e Conceição Evaristo e a importância delas para a política e história feminista brasileira", lembra a advogada que também integra o grupo.

Esse diálogo intergeracional se tornou benéfico para transmitir os preceitos da causa. "Por meio de suas histórias, as pessoas puderam entender melhor a luta feminista. Foi uma oportunidade de compreender as formas de opressão que essas mulheres passaram e como elas conseguiram superar, além de outras dificuldades que ainda se perpetuam". 

Ambiente machista ainda está presente

membros e convidados da cervejaria feminista

Para Elaine, o machismo ainda é evidente no meio de produção e socialização da cerveja. "Somos discriminadas e limitadas por estar bebendo cerveja, por isso a iniciativa é mostrar que também produzimos e bebemos como os homens", explica.

Andreia Prestes completa que, durante os estudos sobre a história da cerveja, descobriu que, no passado, as mulheres é que eram as protagonistas nesse processo. "Na antiguidade acreditava-se que as mulheres tinham o poder divino de transformar o trigo em cerveja. Com o tempo isso foi se perdendo e o ambiente começou a ser dominado predominantemente por homens. Não só os ambientes ainda são machistas, como as propagandas de cerveja. Então começamos a perceber o quanto era importante estar no mercado."

Por enquanto, as Cervejas Feministas de Maria Prestes e Conceição Evaristo não são comercializadas em lugares específicos, somente em eventos. Para mais informações acesse a página do grupo no Facebook ou envie um e-mail para cervejafeminista@gmail.com.

Por Mayhara Nogueira

Fotos: Divulgação/Cervejaria Feminista