Baby blues: conheça esse lado real da maternidade

Lidar com frustrações, solidão e falta de apoio pesa no pós-parto

Publicado em 24/10/2017
Bebê chorando sobre peito da mãe

Quando se pensa na chegada de uma criança na família, geralmente esse momento é associado a celebração e felicidade. Contudo, deixando o romantismo que cerca a maternidade de lado e falando sobre essa experiência real, veremos que nem sempre é assim. Na verdade pode acontecer exatamente o oposto: nas primeiras semanas após o parto a mãe, ao invés de alegria, sente tristeza - ou, em inglês, "blues", e daí vem a expressão baby blues, também conhecida como blues ou melancolia puerperal.

Diferentemente da depressão pós-parto, o baby blues é uma condição passageira e nem sempre exige ajuda profissional. Entre os principais sintomas na mulher estão o choro excessivo, mudanças repentinas de humor, irritabilidade e sensações como de inadequação e impotência. 

E, mais do que a alteração hormonal que ocorre depois do parto, é comum que a nova mãe passe pelo baby blues em decorrência de toda expectativa e sobrecarga que a cercam nesse período. 

Para falar melhor sobre o tema e reforçar a quebra do estereótipo de que as responsabilidades com o bebê e a casa são exclusivas da mulher, o Bar de Batom conversou com uma educadora perinatal e, também, com uma mãe que viveu o baby blues. E elas garantem: a divisão de tarefas e uma rede de apoio à recém-mãe são fundamentais para superar esse momento. Confira:

Perdas e mudanças estão relacionadas ao baby blues

Bebê segura dedo de adulto

Tristeza e um grande sentimento de solidão. Assim Nívea Salgado, mãe da Catarina - hoje com seis anos -, descreve as sensações dos primeiros dias com a filha em casa. "A sensação que eu tinha era como se o meu mundo tivesse virado de cabeça para baixo". 

Entre essas recordações, também marcou um grande sentimento de impotência. "Eu lembro das crises de choro da Cacá, em que eu não sabia o que fazer. Às vezes ela chorava mais de uma hora e só parava porque cansava, e aí dormia. Esse sentimento de impotência, de você não saber parar o choro de um filho, é terrível, e eram nessas horas que eu ficava ainda mais triste", revela Nívea, que divide relatos reais da maternidade como esse em seu blog, o Mil Dicas de Mãe

De acordo com a educadora perinatal Ana Paula Silva, a tristeza materna atinge de 35 a 50% das mães. Ela aponta que, além da impotência, sentimentos diversos que envolvem a maternidade desencadeiam o baby blues, como a sensação de perda e de mudanças.

"Nesse período vivenciamos algum nível de 'dor de crescimento' psíquica relacionada à mudança de identidade, à mudança do papel de filha para o papel de mãe e é também uma mudança social, porque você estará deixando um cargo profissional, mesmo que temporariamente", coloca a profissional, que atua na organização da Morada da Floresta.

Ela também ressalta que essas sensações ruins não excluem as boas no baby blues. "O pós-parto é uma fase totalmente dual, pois ao mesmo tempo em que é uma descoberta deliciosa e um momento tão esperado, também reúne diversos fatores que podem levar a mulher a sentir  baixa autoestima", explica. "Às vezes a falta de apoio leva a mãe a ficar sozinha com o bebê e à falta de tempo para cuidar de si mesma, além da quantidade de palpites externos das visitas e da família, seja sobre a forma de cuidar do bebê ou sobre qualquer escolha pessoal".

Quando a idealização vira problema

Gestante olha para berço

Mas a educadora explica que um dos maiores problemas está na frustração em lidar com tudo isso. "No pós-parto é natural trabalharmos os sentimentos de perda: perda da identidade, do controle das coisas, do próprio tempo, da liberdade, das formas do corpo, etc", aponta. "E podem acontecer frustrações, pois a realidade quase sempre é diferente do que foi idealizado na gestação".

Não ter um parto conforme planejado e nem vivenciar uma rotina de amamentação como se esperava estão entre as principais frustrações. Uma pesquisa realizada por Ana Paula com mais de 100 mães mostrou que para ¾ delas o pós-parto foi desafiador, justamente no sentido de lidar com realidades como essas, fora das idealizações.

"Hoje, a maternidade, a gestação e o parto são muito idealizados", salienta Ana Paula ressaltando que, no lugar de idealizar, o melhor é prestar atenção na transformação psicológica da mulher depois do parto. "O puerpério é uma fase de transformação, é quando vamos aprender a ser mãe daquele bebê, e isso descobrimos na relação do dia a dia". 

Para chegar a essa descoberta e passar pelo baby blues e outras dificuldades dessa fase, ela ressalta que é também nos sentimentos que está um dos fatores de ajuda. "Às vezes o processo de rompimento de idealizações pode ser muito duro, mas faz crescer dentro de nós mesmas uma força desconhecida, através dos erros e acertos".

A educadora completa que é essa força que faz, muitas vezes, com que a mulher passe a seguir mais seu coração do que opiniões que às vezes não representam o melhor para a realidade dela. "Tudo isso traz amadurecimento, experiência e força e ajuda a mulher a se transformar em outro eu".

Rede de apoio é fundamental para nova mãe

Mãos dadas

Nívea concorda que nem sempre as opiniões acabam colaborando. No caso dela, o que mais contou para passar pelo baby blues foi ajuda de verdade. "Todo mundo quer dar a sua opinião, porque acredita que aquilo é o certo. Mas existe uma diferença de ajuda, em que a pessoa vai lá, bota a mão na massa, fala 'olha, vai descansar um pouquinho enquanto eu coloco o bebê pra arrotar'", afirma. "Essa rede de apoio é fundamental no baby blues". 

Ana Paula completa que, desde a gravidez, é fundamental que a mulher pense nessa rede para dividir os cuidados com o bebê e, também, que esteja ciente das transformações e possíveis dificuldades que irá passar para fugir das idealizações. "É fundamental que a mulher quando está grávida tenha consciência das complexidades do pós-parto e consiga se estruturar da melhor forma possível, para que, em harmonia com seu bebê, possa vivê-lo de maneira tranquila e construtiva".

Ela destaca que é importante liberar a mulher das tarefas de casa e dos cuidados com os outros filhos durante o puerpério, "para que ela possa descansar e cuidar do bebê". A educadora completa que manter uma boa alimentação - e alguém que ajude com isso -, aproveitar a luz do sol e controlar a recepção de visitas são outros cuidados necessários, além da amamentação, que libera hormônios que regulam o organismo e proporcionam a sensação de prazer.

Dividir experiências - mesmo que sentimentos ruins e frustrações - com outras pessoas, incluindo a família e o médico, também contribuem. E, evidentemente, não tirar da cabeça que maternidade sem problemas e dificuldades não existe. "Não queira ser a 'super-mãe' perfeita", finaliza a educadora perinatal.

Por Luciana Faria

Fotos: Pixabay/Freepik/Pexels