Aprenda a se reconectar com o seu feminino

Conversamos com a terapeuta Barbara Bolzani sobre autoconhecimento fisiológico

Publicado em 09/02/2018
Terapeuta Barbara Bolzani

O termo empoderamento tem sido usado à exaustão nos últimos meses. A expressão, que no dicionário tradicional significa "adquirir mais poder", já é considerada um complemento do feminismo. Em um contexto geral, é uma forma de dizer que a mulher tomou o controle das decisões sociais e adquiriu consciência da posição que está e aonde deseja chegar.

Mas e quando essa mesma mulher, um ser cíclico e intuitivo, entra agressivamente em um sistema que valoriza a pró-atividade, ação, realização e conquistas - qual é a tendência? O esgotamento. Enquanto existir um desejo de se adequar ao sistema e não de adaptá-lo às necessidades da mulher, as consequências serão cruéis. A saúde e a energia feminina ficarão em último lugar.

Para evoluir, que tal dar alguns passos para trás? Tente responder a essas perguntas: como está o seu ciclo menstrual? E a sua sexualidade? Você conhece os potenciais e o funcionamento do seu próprio corpo? Você sabia que o seu útero é aliado na busca pelo equilíbrio emocional que você tanto deseja?

Para te ajudar nesse redescobrimento com o seu feminino, o Bar de Batom inicia uma série de entrevistas, com diversos profissionais, de diferentes áreas. A primeira delas mostra que o primeiro passo para o empoderamento de fato é entender e usar a sua fisiologia - principalmente a menstruação - a seu favor. 

Quem falou sobre o autoconhecimento fisiológico com a gente foi a terapeuta corporal Barbara Bolzani, que atua como acupunturista, aromaterapeuta e doula. Formada em ciências sociais com especialização em psicologia, ela vem cuidando de mulheres por meio de ervas e medicinas orientais, além de realizar acompanhamento emocional em grupos como a Bênção do Útero, movimento mundial de reconexão feminina. 

Confira a entrevista completa:

Terapeuta Barbara Bolzani

Como as mulheres ainda têm lidado com a menstruação?

De acordo com o taoísmo, o universo se organiza em polaridades que se fundem e complementam: Yin (introspectivo, noite, feminino e lua) e Yang (externo, dia, masculino e sol). Hoje, lidamos com um sistema que valoriza a atividade, a realização e a ação, que são características Yang. A menstruação então não é bem recebida pela mulher, porque é algo que "atrapalha" as suas atividades. Quando precisamos nos recolher por conta dela existe uma briga e uma não aceitação. O mercado ainda não está preparado para compreender que a mulher é cíclica, que ela tem um momento do mês voltado para o seu interior. Ela até deseja estar ativa, mas não tem condições fisiológicas. 

O contrário também acontece, não é mesmo?

Sim, um pouco antes e durante a ovulação. A mulher tem uma fase extremamente ativa, cheia de energia, conectada com a sua libido, que é quando a expressão do feminino dela está de maneira totalmente empoderada. Se a mulher não ovula, acaba perdendo a oportunidade de adquirir todo esse potencial. A importância do autoconhecimento fisiológico vai influenciar nos níveis emocional, afetivo e até na autoestima da mulher. Você entende esse potencial criativo e de doação, mas também vai saber quando há necessidade de se recolher e reciclar essas energias. Como as fases da lua que cresce, atinge a potência máxima e depois começa a decrescer. A mulher é a mesma coisa.

Silhueta de mulher em frente à lua cheia

Confira os vídeos do Bar de Batom no YouTube

O útero tem um papel importante, além de gerar vida? 

Apesar de ser um receptáculo vazio, o útero tem um potencial muito profundo, pois é a expressão máxima do principio feminino, que é a receptividade. Da mesma forma que a menstruação nos convida à introspecção, o útero nos convida ao contato com o nosso feminino. A capacidade de receber engloba intuição, sabedoria interna, autoconhecimento e espiritualidade - ou seja, a sua conexão interna. A partir do momento que você se abastece, energicamente, dessa consciência, o útero consegue te transportar para um lugar de centramento. É lá onde mora toda essa condição de conexão profunda: concentração, meditação, satisfação e preenchimento. Quando isso acontece, eliminamos as codependências e satisfações externas.

Quais são as consequências quando não existe essa conexão?

Quando não há essa conexão a mulher entra no piloto automático, realiza as suas atividades por meio de ações mentais. Aí que começa a gerar muitos problemas psíquicos, como quadros de depressão, ansiedade, síndrome do pânico. Já esse mergulho ao universo interno e de consciência do útero é uma viagem para dentro das nossas emoções e sentimentos. É ter a condição de realizar as atividades sem autocobrança excessiva, pois a cobrança pela perfeição, que vem do nosso lado mental, nos machuca. Mas quando lidamos com o coração, percebemos: "se não deu certo, está tudo bem, vou aceitar, acolher e respirar. Eu não sou perfeita, por isso está tudo certo."

Mulher meditando

Existem algumas mulheres que se culpam por não conseguir conviver com seus próprios ciclos, pois a menstruação acarreta problemas de saúde, como dores, mal-estar, TPM...

Muitas mulheres realmente têm essas patologias muito acentuadas. Porém, dores e TPM exageradas não são reações normais. Alguns médicos até receitam cartelas de anticoncepcional como forma de tratamento. No entanto, só estão amortizando os sintomas e, no final das contas, não resolvem o problema. No fundo, os distúrbios acontecem devido a um desequilíbrio dos meridianos. Dentro da medicina chinesa, o primeiro passo é investigar as causas e, em seguida, trabalhar a parte energética com a acupuntura. Depois disso, expandimos os cuidados com a alimentação e, então, atuamos nos níveis hormonais, com ajuda da fitoterapia e aromaterapia.

Quando a mulher deixa de tomar hormônios também tem uma relação melhor com a sua própria sexualidade. Isso é verdade?

Eu acredito que é um dos maiores ganhos da mulher. Ela passa a adquirir uma sexualidade saudável, integrada e com a libido muito mais empoderada. A sexualidade é um espelho daquilo que a gente é. Mas não só quem tem relação sexual, a questão da sexualidade é muito mais ampla. Tem a ver com autoaceitação, se dar prazer, aprender a ter contato consigo mesma e a perceber o próprio corpo. 

Quais são as dicas para começar a buscar esse autoconhecimento e o prazer em conhecer o próprio corpo?

Eu tenho um método que recomendo para as minhas pacientes: use um caderno para se expressar e anotar os seus aspectos emocionais diários. Anote o seu ciclo, como se sente e o seu nível de disposição. Comece a prestar atenção nas suas características, no seu período fértil e nos seus sintomas antes e durante a menstruação. Com o tempo, perceberá que o seu sistema é cheio de padrões. Isso vai te ajudar a expandir a percepção sobre si mesma. 

Por Mayhara Nogueira

Fotos: Divulgação/Arquivo Pessoal